Atlas Quantum – uma tragédia de ganância, sardinhagem, e desonestidade

Quando li esta matéria no site do Terra, comecei pensando que era cômico, quase que engraçado, mas terminei sentindo que foi uma história de terror.

No começo, parecia mais um caso de sardinhagem só; algumas pessoas investindo em criptomoedas sem entender e entrando em pânico quando a cotação caiu, e agora reclamando com a corretora por conta das perdas. Porém, ao entrar em detalhes, percebi que o buraco era um pouco mais embaixo, e a sardinhagem mais intensa: pessoas investindo o que não poderiam perder, tentando viver e se aposentar apenas de proventos de criptomoedas e não entendendo os riscos associados com este investimento. E dado o volume de pessoas afetadas, o problema parece que foi bem mais sério do que aparentava na manchete. Foi virando uma espécie de filme de terror.

Quando um grupo de pessoas especula em criptomoedas e assim que as vacas ficam magras e o desespero bate não consegue sacar o seu dinheiro, quais são as lições que podemos tirar? Eu consigo identificar pelo menos quatro erros cometidos pelos investidores nesta história triste.

Background da notícia

A Atlas Quantum faz arbitragem de criptomoedas e conseguiu atrair uma clientela interessante com as altas do Bitcoin no passado e as altas expectativas que o novo “dinheiro digital” oferecia para investidores esperançosos. Chegou a contratar atores da Globo para promover os seus serviços, e este investimento deve ter dado certo já que conseguiram um patrimônio gerenciado de $34.7 milhões em criptomoedas.

Enquanto os investidores surfavam a alta dos Bitcoins, tudo estava bem. Momentos bons, bons prospectos e muita euforia rolando. Invistam mais, esta é a bola da vez! Porém, como vimos na história das bolhas, nenhuma onda de alta é perfeita o suficiente para se tornar eterna; eventualmente a situação virou e a cotação das criptomoedas começou a cair. Quando os investidores menos experientes e temendo uma desvalorização começaram a pular fora, pânico acabou por se estabelecer, e a corretora começou a congelar os ativos para evitar um desastre.

No final das contas, todo o trabalho de contenção de danos se tornou um grande desastre de relações públicas, com a polícia tendo que ser envolvida para garantir que os ativos fossem retornados aos seus investidores. O que mais deu errado nesta história toda?

Erro #1 – Especular em Bitcoin como ativo “previdenciário”

Independente de se você considera operações em criptomoedas investimento ou especulação, a verdade é que elas não são um ativo previdenciário, sobre o qual é possível se aposentar e começar a simplesmente viver de renda. Isso é porque criptomoedas não produzem um fator importante para o investidor, especialmente aquele que busca um objetivo previdenciário: cash flow.

Não há fluxo de caixa sendo gerado para o investidor através de proventos, aluguéis ou dividendos, e não há outra forma de se beneficiar do ativo exceto pela venda após valorização futura, sobre o qual toma-se um nível considerável de risco. Quando vemos uma situação dessas, fica difícil de nos certificar que não estamos apostando, mas sim investindo, numa comparação que aconteceu comigo numa outra história.

Além disso, com criptomoedas não há fundamentos ou modelo de negócios para se basear ou analisar como num ativo convencional, e a parte do valuation não é muito clara. Fica difícil e não-transparente analisar prospectos para decidir se vale a pena entrar no investimento.

Este erro é visível na história do ex-militar que, conforme indicado na matéria, começou a investir em Bitcoin em 2016 e em 2019 largou o emprego acreditando que havia juntado um patrimônio suficiente em crypto para se aposentar. Quando uma crise abalou a carteira dele, de repente toda a segurança que ele havia lastreado desabou.

Erro #2 – Não ter margem de segurança para investir

Desenrolando a história do ex-militar, fica evidente que ele não tinha uma reserva de emergência nem uma margem de segurança para operar. Dessa forma, quando a maré reverteu e os bons tempos da alta caíram, ele se encontrou numa situação onde os ativos não tinham liquidez e não puderam cobrir a emergência financeira que o atingiu. A partir daí o efeito foi a bola de neve ao contrário.

Como imprevistos são, por definição, impossíveis de serem detectados, para evitar este tipo de consequência é necessário formar uma reserva de emergência que cubra os seus custos de vida por pelo menos seis meses, e com liquidez imediata. Este último detalhe é importante porque quando o imprevisto acontece, como um acidente por exemplo, ele não vai esperar você faça um resgate em até 3 dias para ser resolvido. Pelo menos uma parcela de risco na reserva de emergência deve estar acessível imediatamente, e é por isso que eu gosto de estruturar meu patrimônio em camadas de liquidez para conter tais ameaças.

Quem investe sem reserva ou, pior, pegando empréstimo para investir, está correndo um sério risco de não conseguir arcar com as despesas de emergência que requerem liquidez para processar. O mais interessante é que o sujeito ainda disse que crypto ainda era o investimento de maior liquidez da carteira dele. Fico imaginando que o resto dos seus investimentos deveriam ser imóveis, no mínimo.

Erro #3 – Não entender a diferença entre poupar e investir

Na matéria, aparece uma história sobre um pai que teve que trocar às pressas o hospital onde marcara o parto de sua mulher porque a situação na Atlas Quantum também influenciou o montante que ele estava reservando para cobrir o preço deste procedimento, e ele não pôde sacá-lo. Finalmente, o parto teve que ser conduzido no SUS por falta de fundos.

Este exemplo mostra bem uma dúvida comum e muito perigosa de quem começa a investir visando enriquecer: há uma diferença crucial entre poupar e investir. A maior diferença, e provavelmente a menos entendida, é que investir não tem prazo. Ao investir, você fixa as expectativas no longo prazo, visando acumulação e apreciação do capital ao longo do tempo, e ultimamente gerar um fluxo de caixa provido como renda passiva suficiente para sustentar todos os seus custos de vida, numa condição chamada de independência financeira.

Nesta estratégia de investimentos, a resposta para a pergunta “quando é que eu vou poder resgatar meus investimentos?” é, essencialmente, nunca. Porém, se você tem um objetivo ou desejo de prazo curto (por exemplo, em até cinco anos), você precisa poupar parte de sua renda até acumular o valor desejado. O mindset aqui é o oposto do investimento: você tem um prazo curto e que almeja encurtar e um objetivo finito de dinheiro. É isso que o pai da matéria deveria ter feito se visava um hospital melhor para a mulher.

Poupar para atingir um objetivo finito tem prazo – investir para enriquecer não. Quem mistura os dois pode entrar numa fria em breve.

Erro #4 – Culpar a corretora e não assumir os erros cometidos

Finalmente, talvez o erro maior da matéria inteira se resume à culpa. De quem é a culpa quando a corretora congela os ativos e impede o resgate – da corretora que não foi transparente ou do investidor que sabia dos riscos e mesmo assim optou por seguir em frente?

Uma das melhores formas de se beneficiar de um erro cometido é através do aprendizado e experiência recebida, mas isso não é possível se o indivíduo não está preparado para aceitar que é dele a causa e culpa dos problemas que o levaram a errar numa decisão. Embora não seja possível prever e prevenir todos os tipos de erros que vão acontecer na vida, há formas de mitigar o risco corrido nas decisões e assim controlar o dano causado caso estas se tornem erradas.

Provavelmente a maior parte das pessoas envolvidas neste problema com a Atlas Quantum negociaram um dinheiro maior que aceitariam ou aguentariam perder. Este é o erro fundamental. Infelizmente, parece que a maior parte não opta por engolir o orgulho e aprender a lição, e segue culpando a corretora pelo problema e tentando recuperar o que podem através de processos que só encarecem a situação. O recém-pai, por exemplo, culpou não ter tempo para gerenciar seus investimentos para “terceirizar” a gestão com a corretora.

Dos mencionados na matéria do Terra, parece que apenas um indivíduo, que aparece lá pelo fim dela, teve uma reação civilizada à situação. Eduardo Silva corretamente investiu um capital de risco na aventura do crypto que sabia que poderia subir ou descer. Os R$20000 que investiu estão ainda congelados na Atlas, mas esta lição, embora cara, não foi fatal. Como ele disse: “Eu estou um pouco inseguro e um pouco chateado, e se não conseguir sacar também vou procurar os meios legais.”

Conclusão

A conclusão desta história não é um final feliz, e talvez não seja um final at all para muitos. Quem dependia deste dinheiro para cobrir os custos de vida tem muito ainda o que fazer para arrumar a bagunça que ficou. Eu sigo o lema do Buffett quando se trata de investimentos, e não invisto naquilo que não entendo 100%; para mim, o legado do Bitcoin é melhor como o sistema do Blockchain para verificação e implementação de transações digitais seguras e resilientes, e não como investimento.

Você investe em crypto? Soube de alguém que ficou envolvido nesta “tragédia” da Atlas Quantum? Escreva nos comentários.

Abraços e seguimos em frente!

Pinguim Investidor


Fonte da matéria no Terra:

https://www.terra.com.br/noticias/brasil/o-desespero-de-quem-investiu-as-economias-em-bitcoins-e-teme-nunca-recuperar-o-dinheiro,bd68aa29d3ac58a383ca7c6dbe76cd2983s8hf5y.html

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8 comentários sobre “Atlas Quantum – uma tragédia de ganância, sardinhagem, e desonestidade

    1. É verdade, Marcelo. Ganância crescendo aos olhos é um veneno que mata lentamente. Quem manipula os sentimentos humanos tem um poder imenso nas mãos.

      Li uma vez que o primeiro passo para se garantir que você nunca irá cair num golpe é admitir que você vai cair em algum golpe um dia. Um pouco de desconfiança previne algumas tragédias!

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    1. Olá, Mago!

      Obrigado pelo comentário.

      Verdade, enquanto houver ganância, haverá esquemas, golpes e malandragem. Mas podemos fazer nossa parte tentando educar os outros e nos educar também para não ser o próximo da lista.

      Abraços e seguimos em frente!

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  1. executivoinvestidor

    Infelizmente não foi a primeira e não será a última notícia. Acho impressionante a quantidade de esquemas de pirâmides e afins que tem sido noticiado ultimamente. A ser humano em sua grande maioria é ganancioso e quer obter resultados instantâneos. Esquecem que não existem fórmulas mágicas. Triste mas os únicos culpados são as próprias pessoas que alimentam essa indústria.
    Abs!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Olá EI!

      É verdade, o ser humano é, gostando ou não, movido a sentimentos, e é particularmente vulnerável a Inveja, Ganância, Raiva e Prazer. Quase todas as guerras, crises e tragédias não-naturais podem ser linkadas a esses sentimentos.

      Lembro de um artigo que li sobre aquele esquema Hinode onde o próprio fundador falou algo como “todos os anos milhares de Brasileiros completam 18 anos – as oportunidades são infinitas.” É exatamente como você falou.

      Abraços e seguimos em frente!

      Curtido por 1 pessoa

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