Arrependimentos Financeiros e como evitá-los

Todos nós chegamos a errar várias vezes na vida, e sábios são aqueles que tomam estas oportunidades para aprender com os erros e melhorar a vida com base nisso. O resultado de um erro deve ser uma forma positiva de se ver a realidade, senão o progresso não aparece e assim não conseguimos seguir em frente.

Há uma diferença, porém entre ter errado e conseguir aprender para reverter a situação e ter errado para seguir o resto da vida carregando arrependimento nas costas. Isso é um sinal que você fez uma decisão que, na hora, parecia não custar muito, mas que acabou se tornando cara ao longo do tempo. Neste vídeo do gestor de fundos e autor do livro Rule #1 Investing Phil Town, estas decisões são chamadas de Financial Regrets (arrependimentos financeiros), e representam decisões com consequências pesadíssimas lá na frente.

Certamente é difícil dizer que nunca passamos por algum arrependimento assim na vida, e mais difícil ainda prever quais decisões poderão se tornar tais arrependimentos no futuro. Aqui vamos explorar algumas delas que ele descreve.

Não ter Reserva de Emergência

Town começa com talvez a parte mais praticada pela média das pessoas atualmente: não fazer um planejamento de emergência para formar uma reserva com liquidez imediata e capacidade para te sustentar por pelo menos 6 meses. Não é preciso um gênio para concluir que imprevistos financeiros acontecem, são mais comuns do que se pensa, e que quando baterem, a única parte que você pode praticamente usar para remediá-los é a parte mais líquida do patrimônio.

A crítica de Town é focada, porém, em outro aspecto: aproximadamente 35% dos Americanos não possuem nem um dólar economizado na conta, e vivem numa constante corrida para receber o contracheque e pagar as contas no fim do mês. Isso é o epítomo da corrida dos ratos, onde gasta-se para manter o padrão de vida e perde-se a liberdade que o dinheiro pode oferecer. Além disso, quase 70% dos Americanos possuem menos de 1000 dólares no banco. O Brasil não está nada melhor também: cerca de 80% dos trabalhadores aqui não conseguem poupar nada no fim do mês.

Esta realidade é ainda mais assustadora, já que não ter uma reserva de emergência ao investir é arriscado, mas não ter uma reserva de emergência para a vida é equivalente a andar sobre um campo minado de olhos vendados. Tais pessoas estão a um contracheque de distância do desastre financeiro total; não conseguir pagar as contas, acumular dívidas, fazer empréstimos e cavar o seu próprio buraco.

Felizmente, a solução não é complicada: o primeiro passo é se conscientizar sobre a situação. Começar a reorganizar a vida financeira, então, pode partir de cortar gastos supérfluos, fazer um orçamento realista e tratar de pagar quaisquer dívidas e empréstimos com disciplina para nunca mais surgir esse problema.

Não automatizar os processos de poupar e investir

Town menciona que os bons hábitos financeiros referentes a poupar e investir devem ser formados em rotina, ou, melhor ainda, automatizados para que possam ser executados mesmo na presença da tentação. Para isso, ele menciona um conceito chamado pay yourself first onde de todo o dinheiro recebido, retira-se a parcela pré-calculada do aporte e esta é invariavelmente aportada e alocada para os investimentos; o restante precisa ser o suficiente para sobreviver o mês conforme planejado.

Esta maneira é bem parecida com o método que uso para fazer meus orçamentos, e com ela, você pode calcular a sua “quilometragem diária” que pode gastar sem ter que compensar num outro dia. Para mim, pensar desta maneira é mais eficiente do que todo dia checar cada categoria de orçamentos para ver o quanto ainda se pode gastar.

Quanto a “automatização” do processo de investimento, eu fico um pouco dividido. Por um lado, coisas como pagar a fatura do cartão em débito automático são uma ótima proteção para não esquecer e acumular dívida. Porém, quando se trata de investir e tomar decisões do planejamento financeiro, gosto de sempre estar consciente sobre a decisão tomada. É possível agendar reinvestimentos automáticos para coisas como o Tesouro Direto e TED para corretoras, mas para mim, nada substitui o prazer de pessoalmente passar o dinheiro aportado e investí-lo quantia por quantia nos ativos. Isso também me ajuda a tomar consciência que estou traçando meu futuro financeiro.

Não ter plano de saúde

Este ponto que Town indica é sem dúvida um dos maiores dramas que existe nos EUA, onde os serviços médicos são todos pagos. Enquanto a maioria das pessoas prefere “economizar” um pouco a mais ao mês não pagando por um plano de saúde, muitas vezes essa pequena “economia” sai mais cara do que o suposto ao longo prazo, especialmente quando se leva em conta o envelhecimento do indivíduo.

Não é possível prever quando acidentes ou doenças irão acontecer, e ainda assim prevenir é melhor do que remediar. E aqui não necessariamente estou falando de arranjar um plano de saúde, mas sim de fazer uma manutenção regular da sua própria saúde, para que você não precise gastar tanto com um problema que se torna grande com o decorrer do prazo. Essa manutenção pode ser feita através de exercícios regulares, uma dieta balanceada, e manutenção da saúde mental; nada dos quais precisa ser caro. Fazer um hábito saudável de se exercitar um pouco, mesmo que seja 20 minutos, todos os dias levará você longe em termos de manter a saúde.

Incidentemente, eu mesmo experimentei em primeira mão como é ficar sem plano de saúde durante uns seis meses durante um período de desemprego, e ao contrário das minhas preocupações, não tive nenhum problema com a saúde. Manter a sua saúde física e mental é muito mais importante do que querer remediá-la no final de um grande período.

Comprar coisas para impressionar gente que não se importa com você

Este é um clássico, e Town acerta na mosca quando fala que gastar dinheiro comprando passivos caros apenas para mostrar a aqueles que não se importam com você é receita certeira para um desastre financeiro ao longo prazo. Existe uma expressão nos EUA chamada Keeping up with the Joneses, onde alguém se esforça para se igualar com uma fictícia família Jones no quesito de acumulação material e amostragem de luxo. Tentar seguir os Jones é um passo certeiro para a própria falência.

O acúmulo de passivos é um mal tão perverso que consegue acabar com qualquer riqueza, independente do salário que a alimenta. E, quando tornada um vício, consegue derrubar até as mais bem-pagas celebridades. Isso porque ao comprar passivos (e, convenhamos, coisas para “impressionar” são sempre passivos), você não está apenas perdendo dinheiro ao realizar a compra, mas sim também com outros efeitos colaterais dos passivos como:

  • Manutenção (pense: revisão do carro, obras no apartamento, manutenção da casa)
  • Desvalorização do bem a longo prazo (um carro na revenda nunca vai voltar ao preço pelo que você comprou)
  • Em alguns casos, spread pago para manter legalmente o bem (IPTU, IPVA e outras taxas que todo mundo adora)

Multiplicando isso por todos os passivos comprados, fica claro que ao longo prazo esta é uma receita certeira à falência. Não há salário humanamente possível para sustentar tantos passivos depreciando simultaneamente. Isso não significa que uma pessoa estritamente não deve nunca possuir passivos; você pode, uma vez que tenha ativos e fluxo de caixa suficiente para conseguir comprar e manter os passivos com a renda proveniente deles.

É como Town resume numa única frase:

Go ahead and add guacamole to your Burrito bowl if you want to. But solve your financial issues first.

Não procurar por educação financeira

E, finalmente, chegamos ao talvez maior problema e com certeza maior arrependimento financeiro ao decorrer de uma vida inteira: não ter procurado por educação financeira. A diferença crucial a se frisar daqui é que há uma diferença entre não ter tido educação financeira, e não ter procurado por ela. Graças ao sistema de educação atual, nem as escolas ou os pais oferecem educação financeira para os seus filhos, causando a maioria a não ser exposta à ela durante um bom tempo. Porém, é dever do cidadão adulto aprender a gerenciar o seu patrimônio, e não há outra forma de se aprender isso exceto por educação financeira.

Town exemplifica brevemente com a sua própria história de vida onde começara a investir e se educar financeiramente numa idade em que muitos já considerariam atrasada para começar nos investimentos; os seus 40 e poucos anos. Isso não o desencorajou: Town conseguiu virar o jogo contra o tempo, encontrou-se com um mentor de investimentos e usou técnicas de buy & hold inspiradas por Benjamin Graham e Warren Buffett para sair de uma situação de $4000 dólares ao ano para tranquilidade financeira e abundância. Porém, nada desta guinada teria sido possível se ele não tivesse ativamente procurado por educação financeira e, sobretudo, sobre como investir.

Já diriam os antigos: ninguém nasce sabendo. E isto é especialmente verdadeiro no âmbito de finanças. Por isso é imprenscindível que as pessoas expandam seus horizontes de aprendizado, e se eduquem financeiramente independente do background que tenham. Nascer pobre ou não ter uma família que investe não devem ser desculpas para que você não aprenda a construir e gerenciar o seu patrimônio. Ter crescido e viver numa comunidade onde todos demonizam o dinheiro também não é: você precisa sair da média se quiser suceder na vida. Eu também coloco um valor muito grande em educação financeira, e é por isso que este site está repleto de material educar o iniciante.

Por fim, quando se trata de procurar educação financeira, lembro bem de uma frase do Bill Gates que mencionei num post anterior:

If you were born poor, it’s not your fault. But if you die poor it is.


Você já teve algum arrependimento financeiro na vida? Como lidou e o superou? Que lições tirou do processo? Escreva nos comentários.

Abraços e seguimos em frente!

Pinguim Investidor

Fonte do vídeo de Phil Town no YouTube: https://www.youtube.com/watch?v=s8mgyuUPRZY

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2 comentários sobre “Arrependimentos Financeiros e como evitá-los

    1. Fala Dividendos!

      É verdade, cara, tentações existem tanto para ativos e passivos também hehehe. Eu particularmente não “ligo” muito de usar a reserva de emergência PROVADO QUE eu imediatamente reponha o valor sacado de lá na próxima remuneração.

      Eu penso que é como aqueles colchões de ar infláveis: de tempo em tempo (graças à qualidade da maioria) descobrimos que ele desinflou um pouco, e temos que botar mais um pouquinho de ar lá, senão na hora de cairmos nele podemos ter uma descoberta ruim…

      Espero que ajude!

      Abraços e seguimos em frente!

      Curtir

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