Educação Financeira #4 – o feedback positivo e a origem das bolhas

História era uma das minhas matérias favoritas na escola. Sempre tive uma certa fascinação por eventos determinantes da história humana. Era fascinado pelos grandes eventos que causavam mudanças astronômicas nos destinos das nações, como guerras, batalhas, sucessões de governos, mudanças climáticas e crises econômicas.

E assim, desde que estudei o crash da bolsa de Nova Iorque em 1929, fiquei interessado em aprender mais sobre as causas e efeitos das crises econômicas na geopolítica mundial. Como é que pequenas mudanças encadeadas, pequenos erros acumulados ao longo do tempo podem mudar a rota da civilização do mundo? Estes estudos me fascinaram.

Avançando para o mundo presente, me tornei investidor e me encontrei numa posição onde estava exposto aos riscos diretamente, e poderia sentir em primeira mão os efeitos da economia nas minhas finanças. Lendo bastante sobre o assunto, me deparei com o livro A Random Walk down Wall Street do economista Burton G Malkiel onde ele dedica o primeiro capítulo do livro para explicar sobre bolhas econômicas na história da humanidade, indo desde a primeira bolha recordada na história – a mania das tulipas na Holanda no século 17 – até as bolhas recentes dos anos 2000.

Malkiel sumariza em sua explicação que todas as bolhas financeiras podem ter suas origens traçadas de volta à uma aplicação de um feedback positivo errático e recorrente, que ilude os envolvidos a acreditarem que aquilo no que estão investindo e apostando é realmente o correto a se fazer.

Como este ciclo funciona e consegue carregar uma bolha para frente? E, talvez mais importante, como você entender a causa das bolhas e se preparar para não ser impactado por elas?

O ciclo vicioso do feedback positivo constante

O ciclo do feedback positivo tem suas origens na própria psicologia humana. Imagine que você está aprendendo algo novo na prática; cozinhar, por exemplo. Você provavelmente vai seguir algumas instruções e vai querer ter alguém “supervisionando” o seu trabalho para saber se está no caminho certo ou não. Este “supervisor,” você espera, é alguém com mais experiência que você e vai te dar algumas dicas e feedback sobre como você pode melhorar.

Como todo processo de aprendizado, saber que você errou é crucial para melhorar, e o seu supervisor deve lhe alertar quanto a isso com o feedback negativo apropriado (ficou sem sal aqui… está muito cru… da próxima vez bota mais água…). Porém, o feedback positivo recebido com um acerto traz um efeito diferente: quando você o recebe, maior é a motivação que você recebe para continuar a se esforçar e melhorar (Isso aí! Ficou direitinho…).

O perigo se origina quando este supervisor passa oferecer feedback positivo indiscriminadamente: se você sempre “acertar” artificialmente numa situação simulada, quando vai saber que errou na tentativa real? A resposta é nunca, e assim, quando errar sofrerá consequências contra quais nunca pôde se preparar.

Formação das bolhas

As bolhas financeiras se formam por razão parecida: uma percepção de retorno positivo é instigada por algum ator propositalmente ou não. Vejam só este ativo X, olha só como ele rendeu! A bola da vez é fazer Y! Tudo aponta que Z vai ser o próximo ouro da geração!
Possíveis investidores geralmente são inexperientes e por isso procuram por algum “supervisor” que possa providenciar esta sensação de estar fazendo a coisa certa.

Ao lidarem com tal ativo da bolha, veem que em princípio só traz feedback positivo, até por evidência em primeira mão. Como todos estão, em teoria, recebendo resultados positivos, eles não veem a necessidade para reavalaiar a situação e continuam em frente sem questionar. Evidência que o crescimento de tal ativo é baseado em premissas falsas ou fraudulentas é ofuscada pelo fluxo de feedback aparentemente positivo. Pra que mexer em time que está ganhando?

Neste ponto em diante, a afobação contagia o público e a bolha se torna incontrolável. É uma questão de tempo até que a situação finalmente se torne insustentável, e a bolha entre em colapso, levando todos aqueles que nela acreditaram e não checaram os fatos em meio a tanto feedback positivo duvidoso.

Um castelo no ar para um grande tolo

Parte da razão pela qual as bolhas funcionam é o que Malkiel chama de castle in the air theory, uma teoria que afirma que não existem, fundamentalmente falando, valores intrínsecos a um ativo, e todo o valor negociável é dado via especulações e relações de demanda e procura.

Embora Malkiel e eu não acreditemos nessa teoria, bolhas financeiras são a prova viva que a maioria está comprada por ela. Ativos sem base de valor intrínseco são valorizados por “o que o público está disposto a pagar,” e se tornam realidades apenas por conta de outra teoria: a teoria do tolo maior. Nesta outra teoria, toda negociação de ativos se torna possível apenas porque para cada compra de um ativo, há a possibilidade de se repassar este a um preço maior para outro “tolo” que acredite que ainda valha à pena comprá-lo por tal preço e passar a um outro tolo ainda maior.

Juntando estas duas teorias, é possível ver uma receita de bolo para todas as bolhas financeiras recordadas: seja considerando tulipas as melhores flores para se enfeitar um jardim, apostando numa empresa de Britânica de comércio com o novo mundo mesmo com os dois estando em guerra, artificialmente estimulando compras e vendas para inchar preços de ativos na NYSE, ou acreditando que empresas iriam se supervalorizar simplesmente porque seus nomes faziam alusões à Internet.

Se protegendo das bolhas: perca o seu FOMO, questione a realidade

Novamente, a lição de se afastar da média e da manada se apresenta como a melhor solução para se proteger das bolhas e seus efeitos: todas as bolhas recordadas fizeram uso de algum artifício do pensamento de manada para se procriarem.

Neste caso, há um outro fator mais forte no jogo: uma coisa chamada FOMO, ou Fear of Missing Out em Inglês. FOMO é um fator social que joga com a aversão de perder que as pessoas possuem, e sem dúvida, a maior aversão sentida é a da perda de oportunidade. FOMO alimenta a afobação pois os veículos de notícias, oficiais ou não, tendem a mostrar apenas o lado positivo da situação, induzindo quem está “de fora” a sentir-se na perda da oportunidade “única” que os outros estão apreciando naquele exato momento.

Aquele velho ditado do “se é bom demais para ser verdade, provavelmente é” se aplica aqui. Mantenha uma dose saudável de cinismo e sempre estude a fundo os ativos que você for investir. A verdade é que colocando a racionalidade à frente das emoções, nenhum destes efeitos de bolha teria acontecido. Precisamos às vezes parar e perguntar a nós mesmos algumas perguntas para avaliar a sanidade da situação nós mesmos, ao invés de nos apoiar nas decisões dos outros:

  • Eu consigo entender perfeitamente como esta situação ou processo funcionam para descobrir quais são os riscos?
  • As promessas e projeções desta proposta estão de acordo com o que possível na sua área de atuação?
  • Alguma parte da proposta não faz sentido e deveria ser explicada melhor?
  • Eu sinto alguma tentativa de cobrir ou abafar informação quando perguntam sobre algum aspecto da proposta?
  • Existe otimismo quanto à proposta, ou tudo já se encontra em afobação e ganância?
https://proxy.duckduckgo.com/iu/?u=https%3A%2F%2Fwww.scienceabc.com%2Fwp-content%2Fuploads%2F2016%2F02%2Fseat-belt.jpg&f=1&nofb=1
Dispositivos de segurança existem por um motivo!

Estas são algumas questões que devem ser feitas frente à uma situação suspeita. Não se iluda: qualquer um pode ser enganado à qualquer hora.


E você, já presenciou de perto alguma bolha ou afobação no mercado? Como se saiu? O que usa para evitar cair nó próximo truque?

Abraços e seguimos em frente!

Pinguim Investidor

8 comentários sobre “Educação Financeira #4 – o feedback positivo e a origem das bolhas

  1. Pingback: Atlas Quantum – uma tragédia de ganância, sardinhagem, e desonestidade – Pinguim Investidor

  2. Pingback: A importância de começar – Pinguim Investidor

  3. Pingback: A importância de estar consciente – Pinguim Investidor

  4. Pingback: Estudo de caso #2: presentes de grego financeiros – Pinguim Investidor

  5. Pingback: Motivação é a nova droga do desenvolvimento pessoal – Pinguim Investidor

  6. Pingback: Hábitos formam ou destroem você – quais você irá adotar hoje? – Pinguim Investidor

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s