FIRE no futuro: como acertar um alvo móvel?

A matemática por trás da Independência Financeira é simples, e não requer conhecimento matemático avançado: pegue o valor do seu custo de vida total mensal, adicione uma margem de segurança, e multiplique o resultado por 300. O número que você obter é o valor do seu patrimônio mínimo necessário para obter renda passiva suficiente para cobrir seus custos sem que o patrimônio principal se derreta e com o menor risco disponível.

Simples e direta, esta fórmula é importante e prática na hora de se planejar e estabelecer metas, e eu a utilizo com frequência ao introduzir finanças pessoais para os outros, ou conversar sobre ela com a minha família. Porém, enquanto esta fórmula é manjada por todos no âmbito das finanças pessoais, há um detalhe importantíssimo que esta simples fórmula omite, até porque é fora do seu escopo prevê-la: a inflação.

Esta queridinha é importante análise do FIRE porque coloca dois fatores em campo que muitos se esquecem na ansiedade de decidir em que ponto parar: o tempo e o poder de compra do seu dinheiro. Ambos são indesejáveis, mas são necessários para fazer uma análise de risco completa – sem eles, todo o seu planejamento e execução podem ser penalizados gravemente no futuro quando você descobrir que seu dinheiro planejado tão cuidadosamente lá atrás não consegue suprir suas necessidades ou vontades.

Como você deve considerar a inflação na hora de estabelecer suas metas do FIRE? Incluindo-a como um alvo móvel no alcance da independência financeira.

Como a inflação afeta o FIRE

A inflação trabalha crescendo a economia e aumentando os preços dos bens de consumo e serviços. Embora existam benefícios para a economia como um todo – com parte tendo influência positiva nos investimentos de renda fixa como o Brasil na década passada – o efeito mais sensível para todos é a redução no poder de compra do dinheiro. Não é preciso muito para perceber este efeito: pense nos preços das coisa há dez, quinze anos atrás, ou quantas coisas você podia comprar usando uma nota de cinquenta que hoje por si sozinha quase não compra nada.

A inflação trabalha mais realisticamente com o tempo e é dada como uma relação exponencial entre o dinheiro e o tempo, geralmente sobre a seguinte fórmula:

Quantia final equivalente = Quantia initial * e^(taxa de inflação * (-1) * tempo)

Por exemplo, tomemos o IPCA, a taxa básica de juros do Brasil e tomada por muitos como o proxy mais próximo da inflação real para as simulações. Digamos que você almeja uma renda passiva final de R$5000 mensais via taxa segura de retirada, o que lhe implicaria acumular um patrimônio de 1.5 milhões de reais antes de soltar o pé do acelerador. Qual é o efeito da inflação, medida pelo IPCA, neste planejamento?

Vamos dizer que você fez as contas e que, com a sua taxa de aporte atual, você atingiria sua meta patrimonial em 10 anos. Com o acumulado de 12 meses do IPCA no momento da escrita deste artigo de 3.2%, o seu objetivo de R$5000 mensais no fim deste período será equivalente a:

Renda final equivalente = 5000 * e^(0.032 ao ano * -10 anos) = 3076.74

Os R$5000 desejados de renda passiva se desvalorizaram 27% ao longo dos anos e seu poder de compra no fim é de apenas três mil reais atuais. Era mesmo isso o que você planejava para a aposentadoria?

O que esta simulação nos ensina é que o valor final de renda passiva via TSR é um alvo móvel, e deve ser tratado desta maneira para conseguirmos acertar no planejamento e não corrermos o risco da desvalorização ao longo do caminho

Um alvo em movimento: sub-metas e replanejamento

Acertar um alvo móvel é significantemente mais difícil do que um estático, e envolve estratégias prevendo para onde tal alvo irá se deslocar. A boa notícia aqui é que, matemáticamente falando, é possível saber exatamente o quanto o seu dinheiro valerá no fim do planejamento. A má notícia é que mudando a estratégia também altera o valor final.

Digamos que depois de ver como o poder de compra da renda planejada de R$5000 ter se deteriorado, você decide que o valor no futuro não é aceitável e aumenta o valor final para R$7000 mensais, o que lhe traria um poder de compra futuro de aproximadamente os mesmos R$5000 de hoje. Embora pareça uma boa pedida a princípio, considere também o aumento no patrimônio necessário para conseguir realizá-lo: de fato, seriam R$600 mil a mais necessários.

Por conta desta diferença, o tempo a mais aportando significa que demorará mais tempo para você voltar a alcançar este patamar patrimonial, e durante este a inflação voltará a comer o poder de compra. Se isto parece com a corrida do cachorro atrás do próprio rabo, porém, não se preocupe; há algumas soluções para este problema.

A primeira é que, por conta da ação dos juros compostos, o capital, quando investido, tende a se valorizar cada vez mais rápido quanto maior a quantidade-base disponível. Há uma diferença entre o rendimento de R$200000 e R$1500000 ao longo do tempo (R$1.5M demorariam cinco anos e meio para “naturalmente” crescer até lá com a Selic atual, versus 39 anos dos R$200k).

Assim, você pode decidir numa sub-meta semi-FIRE sobre a qual você pode experimentar viver com uma certa quantidade de renda passiva. O objetivo neste ponto não é parar de acelerar e viver apenas de renda, mas averiguar se esta seria suficiente para você. Mantenha seu salário atual ativo, mas averigue se a renda passiva está numa situação que você já poderia começar a viver mais dependente dela do que do trabalho, ou se deveria esperar um pouco mais ainda. Desta forma, você se acostuma com o conceito de estar vivendo com o FIRE e torna a transição suave e com menos impacto.

Uma segunda solução é viver de uma solução FIRE crescente: escolha uma quantia de renda passiva que não só irá conseguir cobrir seu custo de vida, mas cujo montante mensal que “sobrar” pode ser reinvestido no patrimônio para providenciar ainda mais renda passiva nos meses seguintes.

Por exemplo, imagine que você estimou o seu custo de vida mensal seria R$4000. Adicionando-se uma “reserva” de R$1000 a mais para imprevistos e oportunidades juntas, a sua renda passiva final deveria ser R$5000. A diferença, porém, é que num mês típico sem surpresas ou oportunidades como viagens, etc, sobrarão para você R$1000 no fim do mês. Se a sua reserva de emergência já estiver montada e pronta, essa quantia não-utilizada pode ser reinvestida como aporte, e gerar ainda mais renda passiva.

Desta forma, a renda passiva poderá crescer lentamente, e acompanhar e se reajustar com a inflação.

Diversifique suas fontes de renda e diminua o risco

É importante ao aproximar-se do FIRE diversificar as suas fontes de renda passiva para reduzir o risco de alguma delas secarem, como escrevi neste artigo anteriormente. Considerando o FIRE no futuro, isto é especialmente relevante já que uma mudança numa única fonte de renda (menos dividendos, lucro menor no mês, reajuste salarial ou de vacância no aluguel) pode ter um impacto enorme na sua renda total, e quanto menos fontes tiver distribuído, maior este impacto.

Embora um risco sistêmico sempre estará envolvido pela natureza do investimento, outros aspectos podem ser reduzidos por uma diversificação de renda passiva ou semi-ativa (ex: através de uma franquia ou negócio próprio com participação parcial). Exemplos de diversificação de renda passiva (além da taxa segura de retirada) poderiam incluir:

  • Proventos de investimentos em ações ou FIIs.
  • Aluguéis recebidos de imóveis ou AirBNB.
  • Renda passiva obtida de plataformas online.

Quanto mais diversificadas as fontes de renda, menor o risco sistêmico – ex: todas as ações dependem finalmente da bolsa, então o mercado imobiliário é menos exposto a este risco. Uma estratégia FIRE que leva estas dependências e riscos será muito mais segura levada adiante no futuro. Renda semi-ativa como negócios e franquias também são uma boa adição para reduzir o risco ainda mais.

Conclusão: Mantenha-se em movimento

Finalmente, a última grande consideração a ser feita aqui é evoluir o planejamento junto com a execução. Mudanças sempre ocorrerão e a melhor forma de se proteger delas é mudando com elas.

Num outro post que escrevi, indiquei que é necessário ter agilidade mais do que velocidade para conseguir levar o planejamento eficientemente junto com uma execução com resultados inconstantes. Aqui, a aplicação é a mesma; aplicar um planejamento para FIRE e medir os resultados que são te trazidos para replanejar se necessário e fazer uma execução melhor na próxima vez.

As lições trazidas aqui é que a meta FIRE não deve ser considerada estática e, portanto, o planejamento também não deve ser. Pode não ser possível acertar o alvo de primeira, mas aqui temos uma vantagem: podemos replanejar para acertá-lo mais tarde, e continuar a perseguí-lo enquanto ele se remanejar.

Como você planeja os seus objetivos FIRE? Você os considera fixos ou acredita que eles poderão mudar no futuro? Escreva nos comentários!

Abraços e seguimos em frente!

Pinguim Investidor


Este post foi inspirado num post do nosso amigo Enriquecimento Progressivo, onde ele discute planos para o FIRE no futuro. Valeu, EP!

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13 comentários sobre “FIRE no futuro: como acertar um alvo móvel?

  1. Mais um ótimo post, que conteúdo amigo! Parabéns!

    Para mim que iniciei esse ano aprender sobre FIRE, não tenho essa meta parada, estática, travada em uma valor, como por exemplo: Juntar um milhão ou 300x a despesa fixa mensal. Acho que no inicio é energia desperdiçada, justamento por esse alvo ser móvel.

    Melhor se concentrar nos aportes, no efeito bola de neve dos juros sobre juros e ir adaptando as coisas conforme cada nova etapa que vamos alcançando na vida. Se houver algum aumento de receita: aportar mais! Se acontecer algum imprevisto: Sacar a reserva de emergência sem culpa e aos poucos reabastece-la.

    Só não podemos ficar inertes e não se atentar a inflação, nesse caso temos que ficar constantemente vigilantes a melhores oportunidades de aumentar renda e patrimônio para compensar esse vilão.
    Abraços!

    Curtido por 2 pessoas

    1. Olá, Semeador.

      É isso aí: um objetivo estático tem essas desvantagens: pensar sobre o FIRE e a frugalidade como um objetivo finito, e assim que acabar vem aquela pergunta: “e agora?”

      Eu também vejo o processo todo como um jogo de aportes, adaptação, e metas: se você parar, arrisca ficar com o patrimônio e rendimentos em risco.

      Abraços e seguimos em frente!

      Curtido por 1 pessoa

      1. Eu estou longe de ter o mesmo conhecimento seu e mesma qualidade de informações nos meus textos, mas fico muito contente com seu feedback.

        Gostaria de escrever mais no meu blog, mas o trabalho me consome muito. Como sou perfeccionista, não quero escrever por escrever.

        Curtido por 1 pessoa

      2. Agradeço o elogio, EP.

        Eu não considero meu conteúdo aqui também perfeito, longe disso. Mas melhoro com cada post que escrevo. É com este mindset que sigo trazendo mais conteúdo melhorando a qualidade do blog.

        Abraços e seguimos em frente!

        Curtido por 1 pessoa

  2. Que ótimo post, pinguim.
    Este é um assunto difícil de explicar, mas você o fez de forma brilhante.
    Tenho um amigo que trabalha na polícia, e ele diz que nos treinamentos de tiro, existem três dificuldades…
    1. Alvo estático ;
    2. Alvo móvel ou você se movendo ;
    3. Ambos se movendo.

    Esse terceiro nível retrata a vida dos que vivem de trabalhos que geram renda variável, como o meu (vendas). Não é fácil programar aportes, e é mais difícil ainda pois temos alvo móvel.

    Mas o que nos motiva é muito mais forte.

    Parabéns mais uma vez, ótimo texto.

    Stark.
    http://www.acumuladorcompulsivo.com

    Curtido por 1 pessoa

    1. Fala Stark!

      Interessante essa analogia do tiro. Sem dúvida nós da IF perseguimos a situação #3, pois é possível “abaixar o nível” tanto com mudanças nos nossos arredores ou nas nossas necessidades mesmo.

      Fico só a imaginar como seria aportar baseado em renda não-fixa como num negócio próprio, sempre trabalhei assalariado, mas vejo negócio próprio como uma chance única. Você tem negócio próprio?

      Abraços e seguimos em frente!

      Curtido por 1 pessoa

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