Errando

Recentemente, errei. Novamente. Fiz uma decisão que parecia ser a coisa certa na hora, mas finalmente percebi que não era e as consequências vieram. Errei depois de ter errado várias outras vezes numa vida inteira, e provavelmente não será a última vez. Mas, ainda assim, averiguei a situação, percebi que o erro não era nada fatal, me reergui e segui em frente, com muitas novas lições aprendidas a mais no bolso.

O parágrafo acima poderia ter sido completamente omitido e esquecido em meio ao meu cotidiano, mas eu optei por escrevê-lo por possuir uma coisa que poucos param para apreciar o seu valor verdadeiro: errar. Desde pequenos, somos condicionados a temer erros quando, tal como diz o ditado, eles são naturais ao ser humano, e cruciais no nosso aprendizado diário.

Ainda assim, porém, parece que todos nós temos uma persistência em abominar erros e qualquer desvio da perfeição procurada. Aqui, somos rápidos para apontar as pessoas ao nosso redor como os culpados, como as escolas, os professores, os pais e a sociedade, por exemplo. Mas a verdade é que mais do que qualquer outro, quem abomina e pune nossos erros somos nós próprios. Aprendemos desde cedo na vida que quem erra ou pratica algo fora do aceitado como certo é punido, então desenvolvemos uma defesa própria interna para nos punir e policiar contra estes erros.

Esta manobra, porém, não é sem consequência, já que reprimir os erros significa reprimir a criatividade e o espírito de experimentar que é necessário para o desenvolvimento pessoal. E assim, limita-se a vontade de tentar novamente ou querer evoluir para melhorar e conseguir acertar.

Quais são as coisas que nossos erros podem trazer que podem nos melhorar?

Growth mindset: a peça-chave para o seu desenvolvimento

Um exercício básico realizado nas escolas primárias dos Estados Unidos lida com o conceito do Growth Mindset contra o Fixed Mindset. Crianças nas escolas aprendem que podem se considerar como tendo duas possíveis maneiras de pensar:

  • Os recursos que eu tenho me são inerentes e limitados a todo talento, dons, e personalidade que eu possuo de nascência (Fixed mindset). Ou:
  • Meus recursos podem ser expandidos através das minhas ações, práticas, e vontade, independente de com quanto talendo, personalidade ou aptidão física eu nasci (Growth Mindset).

Existem pontos positivos e negativos para os dois mindsets, mas é interessante ver como através do Growth Mindset, uma variável extra dita a diferença nas conquistas do indivíduo: esforço. Este é o fator que permite uma pessoa que, para todos os propósitos, é completamente mediana persiga seus sonhos e melhore os aspectos de sua vida.

O detalhe, porém, é que ele se torna quase que impossível de colocar em prática se não acompanhado da coragem e motivação para errar e tentar novamente de forma melhor. Se somos condicionados, ou nos condicionamos, a tentar alguma coisa e nunca mais praticar se não acertamos de primeira, nos fechamos para aprender coisas novas e assim nunca iremos atingir excelência em nada.

Aqui entra em contexto aquele conceito das dez mil horas de Malcolm Gladwell, onde há um “número mágico” de horas de prática necessária para que qualquer habilidade seja desenvolvida até o nível de mestre. E mesmo que não queira se obtenha nível de mestre em tudo, é importante frisar a importância de “errar” neste processo: os erros fazem parte destas horas como fonte de feedback sobre como melhorar.

Sem aceitar os erros humano na prática, não há como ter um Growth mindset, que em seguida não permite a uma pessoa que cresça além de seus talentos naturais.

Novas alternativas e pontos de vista

Um erro pode não-intencionalmente fazer que uma pessoa descubra novos pontos de vista ou formas de realizar uma tarefa que não estava buscando anteriormente. Ao analisar um erro, não só conseguimos um feedback de como melhorar, mas também pode nos mostrar insights interessantes, diferentes daquilo que buscávamos inicialmente.

Um exemplo clássico deste acontecimento é o Post-it, criado colateralmente quando o seu inventor falhou a inventar uma supercola que ficou fraca demais. Ao invés de jogá-la fora, espalhou sobre alguns pedaços de papel e descobriu que o adesivo era suficiente para colar notas pequenas de papel nos vidros e paredes do escritório. A supercola em si nunca saiu do papel, mas a outra invenção colou – literalmente – e em alguns anos Post-it virou um dos bestsellers da Americana 3M.

No âmbito da saúde, o erro de Alexander Fleming foi crucial para se descobrir e isolar a Penicilina. Por erro de laboratório, Fleming deixou algumas placas petri serem contaminadas por um fungo estranho que, depois de maior análise, Fleming descobriu que causava bactérias ao seu redor a morrer. Este “pouco caso” de laboratório causou a Penicilina a ser descoberta, isolada e utilizada como tratamento para várias doenças.

Descobertas incríveis originadas a partir de um erro que abriu os olhos para novas alternativas. Na época, provavelmente ninguém consideraria isso. A rejeição arbitrária e supressão de erros cega a pessoa de descobertas como essas, assim como a criatividade.

Agilidade e ciclos de aprendizado

O ciclo de tentar, errar, analisar e recomeçar em muitos aspectos espelha o ciclo OODA da agilidade na tomada de decisões. É crucial que o ao errar, o precioso feedback do erro seja recebido e analisado.

No Growth Mindset, as falhas acabam se tornando a fonte de feedback que o seu “Orient” toma para decidir o próximo passo para atuar. Quando se pratica este ciclo conscientemente, cada falha, erro, e situação inesperada se tornam fontes preciosas para o planejamento, e repetindo este ciclo um número suficiente de vezes, não há outra conclusão exceto o sucesso.

Os engenheiros que criaram a primeira aeronave a voar estritamente com esforço humano (sem motores ou planar), por exemplo, não possuíam nenhuma vantagem significante sobre as outras equipes que também tentavam o feito em 1961. Porém, o time sucedeu porque conseguiram iterar rapidamente; a cada protótipo falhado, eles coletavam informação sobre o que não não funcionou e rapidamente prosseguiam para melhorar o seu design novamente.

Ponto de atenção: assumindo responsabilidade

É importante frisar um ponto sobre a reflexão dos erros e falhas: todo o aprendizado e objetivos de melhoria partem do princípio que você aceita a responsabilidade deles. De nada adiantarão as falhas e feedback delas se você em primeiro lugar não acreditar que elas aconteceram por um motivo ou que você não tem responsabilidade sobre o acontecimento. Fazer isso só irá te levar a uma vida de reclamações vazias sem utilidade.

É necessário ter humildade e racionalidade para assumir o erro e suas consequências antes de conseguir analisar a situação e evoluir. Este é um ponto discutido a fundo no livro de Mark Manson, onde ele afirma que se tornar mentalmente a causa de tudo o que acontece na sua vida é crucial para caminhar em direção ao sucesso. Manson especificamente cita o caso de William James, pai da Psicologia moderna nos EUA, que, embora as dezenas de problemas de saúde (no estômago, nas costas, na visão e audição, entre outros) e outras condições ruins de sua vida conseguiu superar tudo e ter uma carreira brilhante no mundo acadêmico.

O ponto de virada? Ele declarou um dia que tudo o que acontece em sua vida é de uma forma ou outra causada por ele mesmo.

Fazer esta mudança de perspectiva é crucial por mudar o balanço do controle da situação, como visto pelos estóicos. A vida, e todas as suas sofrências, não acontece para você – você a faz acontecer, junto com tudo o que dá errado. Basta você refletir sobre os erros e tomar controle para que eles não aconteçam novamente no futuro.


Você considera os seus erros importantes diariamente? Quais foram as maiores lições que conseguiu tirar deles? Coloquem nos comentários abaixo!

Abraços e seguimos em frente!

Pinguim Investidor


Este post foi inspirado num post do blog Simplicidade e Harmonia onde a autora reflete sobre um erro causado por sobre-confiança. Valeu, S&H!

Outras fontes deste artigo:

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5 comentários sobre “Errando

    1. Olá, Marcelo!

      É isso mesmo. Dizem esperto são aqueles que aprendem com os seus próprios erros, mas os sábios aprendem com os erros dos outros.

      É interessante mostrar mais humildade e falar sobre os pontos negativos, mas parece que todos querem esconder esse lado e só mostrar as coisas boas nas redes sociais.

      Abraços e seguimos em frente!

      Curtido por 1 pessoa

  1. Pinguim Investidor,

    O exemplo do Post it nos mostra bem o quanto os erros podem ser úteis – e lucrativos. Além disso, assumir os erros além de questão de responsabilidade, considero também um bom caminho no sentido do desenvolvimento pessoal.

    Meu post de hoje fala também sobre esse tema, se quiser ver:
    https://www.simplicidadeeharmonia.com/2019/09/vergonha-assumir-erros-fala-mais-alto.html

    Boa semana,

    Curtido por 1 pessoa

    1. Olá, S&H!

      É verdade, todos nós temos o potencial de aprender com nossos erros; é uma questão de acharmos a lição lá enterrada e polí-la até nos trazer valor.

      Gostei do seu post. Admitir um erro é definitivamente a maior barreira que existe neste aprendizado.

      Abraços e seguimos em frente!

      Curtir

  2. Pingback: Comentário do Pinguim #3 – Quando vai estar bom para se preparar financeiramente? – Pinguim Investidor

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