Estoicismo na prática: sobrevivendo a perda de um celular

Recentemente publiquei no site uma introdução sobre o Estoicismo, a filosofia dos gregos antigos que busca maximizar a felicidade através do uso extensivo da razão e lógica. Quase que como planejado, alguns dias após ter terminado de escrever o artigo, meu celular parou de funcionar sem qualquer aviso prévio.

Parecia mesmo que o universo estava testando as minhas habilidades estóicas. Se esse cara acha que sabe mesmo sobre o estoicismo, vamos ver se ele está preparado de verdade! E assim, voltando pra casa depois de um domingo longo, percebi que o telefone não ligava mais e o problema não era a bateria. Quando comecei a pesquisar sobre o problema, mais assustador ficava, e no fim da cruzada, acabei aceitando que o celular estava irrecuperável.

Durante os próximos 15 minutos ocorreu uma chuva de pensamentos na minha mente sobre o que aconteceria nos próximos dias, mas ao fim dessa novela tive sucesso ao aplicar o mindset estóico ao problema. Foi mais um dos muitos exemplos de estoicismo na prática que tenho realizado como aprendizado diário, e as lições com certeza vão se propagar. Vejamos como a situação se desenrolou.

Controle sobre a percepção e reação à situação atual

Todos já passamos por uma situação parecida: incidente, dúvida, apreensão, pânico, aceitação, e recuperação. O estoicismo, ao contrário do que parece, não almeja reprimir estas fases e pular direto para a conclusão. Na verdade, os estóicos acreditam que as emoções podem ser sentidas; elas apenas não devem ser deixadas para controlar o indivíduo.

O ponto de virada estóica neste caso foi que depois de brevemente arquitetar um desastre na minha cabeça, e as milhões de consequências que teoricamente cairiam na minha vida, parei e pensei na minha reação à situação em questão: valia a pena me preocupar tanto com um dispositivo quebrado?

A partir desse ponto, a lógica tomou conta: comecei a visualizar negativamente e cavar ainda mais adentro o buraco que tinha se formado: poderia ter sido pior e eu estar numa situação onde eu dependesse do celular pra me localizar ou sobreviver. Eu poderia não ter um celular velho me esperando em casa e ter ficado sem celular at all por alguns dias enquanto gastava mais algumas centenas com um novo. Eu poderia não ter salvo as minhas coisas na memória externa e todas as minhas fotos, as minhas memórias, dos últimos anos terem sido perdidas para sempre. E por aí percebi que a situação que antes parecia uma perda crítica passou a na verdade ser uma coisa mínima, quase que insignificante.

E assim tornei uma situação negativa e amarga em uma razão até pra ficar aliviado.

Um produto material não pode ditar a sua vida

Diante dessda situação, percebi mais um insight poderoso da vida. Por alguns 15 minutos, deixei que a minha mente fosse controlada por um celular quebrado, um bem material. Diante da minha realização, percebi quanta influência os meus celulares exerciam em mim. Eu já tinha uma certa consciência, mas de repente a magnitude do controle exercido ficou muito clara.

Uma das falas mais famosas do filme Clube da Luta diz: as coisas que você possui acabam possuindo você. E isso ontem ficou claríssimo. O que pra muitas pessoas poderia ser um carro ou um apartamento legal, naquele momento de perda foi o meu celular quebrado, e, mais importante, também o ponto mais importante, o próximo celular que eu iria adquirir.

Olhei pro meu celular antigo, que ainda funcionava e pensei se valeria a pena trocar novamente de “algemas douradas.” Velho, novo, Android ou iPhone, não importa: ideologicamente falando seriam apenas mais umas algemas douradas da vida que, se não mantidas em cheque, iriam me dominar psicologicamente novamente em uma questão de tempo.

Isso significa que eu nunca mais vou comprar um celular? Difícil, dadas as “necessidades” de se ter um smartphone e o imediatismo de hoje em dia. Mas tenho certeza que o próximo vai ser um celular muito bem-pensado, analisado e considerado, e que irá me render muitos mais anos do que a “vida útil” média de 21 meses que os usuários de smartphone tendem a manter, ou que a indústria secretamente mantém.

E além disso, o meu antigo se provou muito útil para a situação até agora.

Lições aprendidas: backup e resiliência

Uma das lições que ficam dessa situação toda, além da visualização negativa da perda do bem material, é o preparo contra o impacto da perda. Muitas pessoas associam este preparo com o famoso backup, que sempre é deixado para depois ou nunca feito, até o dia em que a tragédia acontece. Pelo que aprendi, porém, não apenas o backup é necessário, mas também a resiliência nas operações do dia-a-dia.

A resiliência é o que faz você conseguir seguir em frente mesmo com a perda, ou que faz você se recuperar rapidamente e prosseguir com as operações diárias. No meu caso, minhas operações não eram concentradas apenas no meu celular (nunca foram, como sempre fui um cara de computadores), então o impacto da perda deste foi pequeno. Meu cotidiano revolve em torno do meu computador e, fora dele, principalmente da Internet, onde armazenamento online e web applications tornam minha vida muito mais acessível e menos dependente de um único dispositivo ou serviço.

Desta forma, pense novamente sobre como a sua vida está estruturada, operacionalmente falando. Você depende de alguma única coisa para sobreviver? Poderia ser um celular, carro, computador, ou qualquer outro bem material. Se sim, prepare-se criando alternativas à tal coisa, buscando resiliência.

Eu mesmo criei outras formas de ter meus sistemas Linux de forma portátil, num pendrive. Aliando isso aos meus backups, significa que aquilo que me é importante nunca será perdido num downtime.

E assim vou seguindo, sem o meu celular primário, mas sem impacto ao meu dia. Graças ao estoicismo, consegui passar por este “teste” da vida e vi que a perda de alguma coisa material não me impactará na vida como um todo. E isso é uma lição para a vida toda.


E vocês, como praticam a resiliência e o estoicismo na vida?

Abraços e seguimos em frente!

Pinguim Investidor

9 comentários sobre “Estoicismo na prática: sobrevivendo a perda de um celular

  1. executivoinvestidor

    ótimo post! Eu já tive o desprazer de perder “minha vida” em 2011 que estava num pendrive. Documentos digitalizados, todas minhas declarações de IR, todo meu controle financeiro, queimados! Claro que não tinha backup! Hoje mantenho tudo na nuvem pelo iCloud.

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    1. Olá, EI.

      Pois é, em 2009 eu perdi o meu HD externo de backup e quase que em seguida o meu laptop que tinha o principal de dados: registros da minha vida antes disso não existem mais. O que tinha no Dropbox ou no Gmail era quase nada (acho que no Dropbox tinha só uns 2GB de espaço).

      O lado bom desse incidente foi que com ele tive a oportunidade de conhecer o Linux; uma decisão que ficou comigo até hoje, dez anos depois!

      Hoje tenho dois backups offline em paralelo com um online. Backup nunca é demais!

      Abraços e seguimos em frente!

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  2. Exatamente isso. Você não pode deixar essas perdas ditarem a vida. É você se fazer a pergunta “quais são as outras opções?” e seguir em frente.
    Se ficar mais tempo parado e reclamando a vida não anda e só vem essa chuva de pensamentos ruins

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  3. Oi Pinguim. Eu também tive uma experiência parecida com a sua quando meu celular simplesmente morreu, eu quase perdi todas as fotos de recém-nascida da minha filha. Depois disso, aprendi a sincronizar as fotos no Google Drive automaticamente. Tudo está na nuvem. Até mesmo a planilha de investimentos. Se meu celular, notebook quebrarem, eu estarei tranquila. Beijos.

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  4. Engenheiro Mendigo

    Bom relato Pinguim!

    Por mais materialmente desapegado que eu tento ser, infelizmente dependo do meu celular pra tudo: fazer minhas planilhas, trabalhos da facu, programar, assistir vídeo aulas, comprar minhas ações, e até pra escrever nos blogs… putz muita coisa meu celular é praticamente meu computador

    Difícil sobreviver sem celular hj em dia, mas temos que buscar o meio termo e não sermos 100% dependentes deles

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    1. Olá, Mendigo, obrigado pelo comentário!

      O smartphone é o novo cigarro da vida moderna. Eu fiz um experimento lá atrás em 2014~2015 onde eu aproveitei que tinha “bricado” o meu antigo pra tentar viver completamente sem smartphone o mais tempo possível.

      Socialmente falando, não teve diferença alguma que eu percebi. Mas a parte triste foi ver que alguns serviços não ofereciam alternativas exceto por aplicativo. O Banco Inter é um exemplo disso: sempre lá se gabando que é moderno e digital, mas não oferece nenhuma outra forma de acesso fora do aplicativo. Aí o cara perde o celular (como eu) e fica 100% sem acesso ao serviço.

      Eu tento evitar ao máximo o meu celular na vida diária, é um exercício a um minimalismo digital. Já quase não uso ele no dia-a-dia, só mesmo uso quando faço viagens ou fico sem o computador por um tempo.

      Abraços e seguimos em frente!

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  5. Pinguim Investidor,

    Muito bom o seu post.
    Precisamos repensar sobre as dependência atuais. Já vi pessoas falarem que estar sem o celular é como se lhes estivesse faltando uma parte do corpo… A tecnologia sem dúvida é muito útil, mas quando gera sentimentos como o que citei acima, acredito que está começando a haver uma troca de valores.

    Boa semana!

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  6. Pingback: Fechamento Agosto 2019 – fight my way back – Pinguim Investidor

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