Estoicismo: lições diárias da vida

Embora aqui no Pinguim Investidor eu tenha escrito bastante sobre desenvolvimento pessoal e frequentemente menciono o Estoicismo como um dos pilares que me baseio pra desenvolver a minha filosofia pessoal, percebi que ainda não havia escrito um post falando do Estoicismo especificamente. Já escrevi há um tempo sobre o hedonismo, que seria o extremo oposto do estoicismo por focar puramente no prazer humano, mas nunca abordei o tópico diretamente. Seria injusto eu deixar este tópico que tanto menciono no blog sem o seu próprio post, então tomei a iniciativa de dissertar ao máximo que sei sobre ele.

O estoicismo, se eu tivesse que sumarizar em algumas palavras, é uma filosofia sobre as lições diárias da vida. É sobre como você aprende a lidar com os momentos inesperados e não ser afetado tão negativamente, e melhora continuamente com cada dia que passa. Como toda habilidade humana, é necessário a prática contínua e diária para aprendermos com a experiência e melhorarmos. Não adianta simplesmente ler os textos estóicos e se achar o iluminado no assunto.

Este aprendizado constante necessário para entrar no approach estóico pode frustrar um pouco o iniciante (foi assim comigo no começo) então com este post espero conseguir clarificar um pouco sobre esta filosofia, e possivelmente, convencer alguns leitores curiosos a experimentá-la para o benefício próprio.

Vamos ver como que é.

Os pilares do estoicismo

O estoicismo moderno segue os fundamentos traçados pelos filósofos gregos e romanos da antiguidade. A filosofia é tão antiga que não são nem livros referidos, e sim cartas e outros documentos coletados de algum filósofo agregados postumamentes como livros. Alguns exemplos são as Meditações de Marco Aurélio, as cartas de Seneca, as recomendações morais de Publius Syrus.

Desde Zeno, o criador da escola estóica de filosofia, cada filósofo agregou um pouco mais aos ensinamentos da escola, e hoje podemos nos beneficiar de um ensinamento muito mais eclético do que na época (quando, inclusive escolas rivais entravam em vários bate-bocas e rixas políticas). Eu em particular aprendi sobre a filosofia através de outros autores que escreveram seus livros baseados nos documentos dos filósofos da antiguidade. O livro que mais me marcou foi Guide to the Good Life: the ancient art of Stoic Joy de William Irvine, e é nele que me baseio este artigo.

O estoicismo possui alguns pilares centrais, alguns meio contraditórios ao senso comum, mas cruciais ao objetivo final de viver uma vida boa e racional:

Visualização negativa

Os estóicos acreditam que não é possível chegar de fato ao “fundo do poço.” Há sempre uma ou mais formas que a sua situação atual poderia piorar, ou ter sido pior. Um truque psicológico muito utilizado se chama visualização negativa. Esta prática, por mais que pareça, não é pessimismo. Muito pelo contrário: ao imaginar e até mesmo visualizar mentalmente alguma forma da sua situação atual poderia ser pior, você imediatamente se torna grato a tudo como está no momento.

Para um exemplo básico, feche os olhos durante alguns minutos, e sinta a escuridão. Esta é a realidade dos cegos. Imagine (ou sinta!) a dificuldade de não ter a visão, até mesmo a tarefa básica de digitar corretamente no computador ou smartphone se torna extremamente difícil. Como é que seria caminhar até o ponto de ônibus, ou ir trabalhar assim? Imagine viver assim pelo resto da sua vida. Difícil? Triste? Miserável? Deixe as emoções rolarem.

Agora abra os olhos. Surpresa: você não é cego!

A sua vida não é tão difícil quanto poderia ser. Você tem uma vida boa, simplesmente não sabia. Agora vem o ponto chave: aproveite esta descoberta para perceber quanto a sua vida é boa, enquanto muitas circunstâncias dela poderiam ter se tornado piores. Um pouco de imaginação e racionalidade – e a visualização negativa – lhe ajudarão a achar a felicidade onde aparentemente nada existia.

Desconforto voluntário e “prática da pobreza”

Os estóicos mais experientes dão um passo além da visualização negativa, e tornam um pouco mais real a sensação de algum problema da vida. Este processo é o desconforto voluntário, onde o praticante se voluntariza a “sofrer” de alguma forma ou situação indesejável para experimentar a sensação em primeira mão.

Não gosta dos seus sapatos? Experimente passar um dia andando descalço então. Acha que o calor da sala está ruim? Fique debaixo do sol lá fora durante 30min seguidos. O ônibus é precário? Experimente caminhar até o trabalho, ou ir de bicicleta. Cadeira ou cama desconfortável? Durma no chão algumas noites pra ver o que realmente é desconfortável.

E por assim vai. Pra quem frequenta a academia ou se exercita regularmente, o conceito não é desconhecido, e vai junto com o famoso No pain, no gain dos bodybuilders. Ao terminar o experimento, você vai passar a dar muito mais valor ao seu padrão natural de vida. E nada lhe impede de re-experimentar a sensação cada vez que você se sentir “adaptado” a algum conforto de novo.

A palavra-chave deste conceito, claro, é voluntário. Você quer realizar estes experimentos de forma completamente voluntária, e que poderá optar por parar se for muito extremo quando quiser. Ficar horas debaixo do sol escaldante arriscando ensolação e desidratação só pra querer “aclimar” não é estóico, é estúpido.

Divisão do controle

Os estóicos acreditam numa “invencibilidade relativa” na hora de lidar com os problemas que a vida entrega diariamente que se baseia primariamente na sua percepção pessoal sobre o conceito de controle.

É um fato conhecido que as pessoas bem-sucedidas acreditam que tudo o que acontece em suas vidas é consequência de suas ações. Este conceito é bem claro e um ponto de guinada no livro The subtle art of not giving a fuck de Mark Mason. E embora muitos poderiam dizer que este ponto contradiz a visualização negativa descrita nos pontos acima, um outro truque psicológico vira o jogo aqui: você pode, e deve, dividir a sua percepção do controle entre coisas que estão sob o seu controle, e aquelas que não estão.

Segundo os estóicos, temos que nos preocupar com apenas aquilo sobre o qual temos como controlar. Todas as outras coisas não valem a pena se preocupar. Este modo de pensar deixa uma pequena área cinza: e quanto as coisas sob as quais temos apenas controle parcial? Nestes casos, a resposta no livro de Irvine é preocupe-se com apenas a parte sobre a qual você tem o controle.

Como exemplo, Irvine descreve uma partida de tênis. Você quer ganhar do seu adversário, mas obter a vitória é algo não apenas dependente da sua habilidade e controle; há a habilidade do adversário também, em meio a outros fatores. Irvine soluciona o problema estoicamente da seguinte maneira: não se preocupe em obter a vitória (sob a qual não há controle), mas sim em jogar com a melhor de sua habilidade.

Mesmo que você perca, estoicamente falando, você conseguirá atingir 100% do seus objetivos relevante. Parece que aquele ditado antigo de que o que importa não é ganhar, mas sim competir realmente estava certo desde então!

O dever do ser humano

Os estóicos antigos acreditavam que ao ser humano foi dado um dom, um presente divino único, e este é a racionalidade. Como os únicos no planeta capazes de viver uma vida racional, os estóicos concluem que o nosso dever e propósito final é de viver a vida usando a razão o máximo possível. Quando falhamos em usar a razão e deixamos nossas emoções tomarem conta de nós, perdemos potencial e nos tornamos mais próximos aos outros animais.

Como dever da nossa racionalidade, os estóicos concluem que também devemos nos esforçar para que espalhemos e ajudemos o maior número possível de pessoas na vida. Este é provavelmente um dos pontos mais difíceis de se aceitar, pois concluimos que a maior parte dos nossos problemas é causada pelas outras pessoas.

Ainda asim, os estóicos persistem; nosso dever é ajudar e educar os outros seres humanos na utilização da razão. O filósofo Seneca, por exemplo, frequentemente entrava de supetão nas casas de desconhecidos para espalhar seus ensinamentos, o que lhe rendia vários insultos em seguida.

Como podemos então cumprir este dever se a maioria das pessoas é devagar para aceitar idéias novas? Na minha experiência, a melhor forma de ensinar e convencer os outros é por exemplo; viva e mostre o conceito no seu cotidiano, e as pessoas serão influenciadas quando perceberem o valor que é agregado. Foi assim que consegui convencer minha família, por exemplo, sobre a necessidade da educação financeira.

Não mostre o estoicismo para os outros, viva o estoicismo e os outros irão lhe seguir.

O estoicismo no mundo moderno

Alguns críticos são rápidos para apontar que uma filosofia do século 4AC não é atualizada ou realista suficiente para a vida moderna, com suas novas necessidades e desejos artificiais. Por experiência própria, porém, eu afirmo que esta observação não poderia estar mais errada.

Os tempos mudam, mas a natureza humana não. Muitos dos mesmos “problemas” que os antigos se esforçavam para resolver (instultos, relações instáveis, tristeza, etc) continuam vivos e presentes até hoje em nosso cotidiano. E, aplicando os mesmos métodos utilizados pelos antigos que aprendi, notei meu bem-estar geral aumentou muito, especialmente em relação ao trabalho onde costumo (ainda, mas estou me aperfeiçoando diariamente) me aborrecer bastante.

Conclusão.

Para quem ainda não se convenceu da utilidade desta filosofia, aqui está a razão pela qual ela ainda funciona: o estoicismo essencialmente busca maximizar a felicidade e reduzir os sentimentos negativos como raiva ou tristeza. Ultimamente, o estoicismo ensina que os impactos dos problemas nos é causado não por sua natureza, mas pela nossa maneira de reagirmos a eles.

É aí que entra em questão nossa racionalidade: o bom estóico se treina para controlar as suas reações a um problema sem deixar a emoção tomar conta. Pensar logicamente, considerar um outro ponto de vista, ou manipular as expectativas são todos artifícios que contribuem para esta análise.

E assim termino minha humilde explicação. Amanhã, milhares de outros problemas irão aparecer na minha vida e focarei somente naquilo que poderei controlar, aprendendendo cada vez mais a viver uma vida tranquila.

E você, como vai reagir à vida a partir de agora?

Abraços e seguimos em frente!

Pinguim Investidor

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17 comentários sobre “Estoicismo: lições diárias da vida

    1. Ola, Yuka.

      Que bom que gostou do post! Pois é, eu poderia falar um dia inteiro sobre o que é o estoicismo, como aplicá-lo na vida real (e não na dos gregos antigos onde ele foi baseado) mas acho que são assunto para outros posts.

      Quem adota o FIRE, minimalismo, ou entende sobre finanças e a bolsa inconscientemente adota parte do estoicismo já que muitos dos conceitos são aproveitados. Basta se aprofundar um pouquinho a mais no assunto ou praticar conscientemente mais!

      Abraços e seguimos em frente!

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  1. Eu já tinha ouvido falar sobre essa filosofia em algum vídeo do Tim Ferris mas nunca fui olhar mais de perto. Cara, é uma forma de ver o mundo interessante. Parar de reclamar e tentar se preparar pra qualquer situação. Tem uma história do Phelps que foi nadar numa prova e entrou agua no óculos dele e mesmo assim ele ganhou, aí ele dando entrevista comentou sobre isso e disse que antes de nadar ele se preparava psicologicamente pra qualquer situação que pudesse ocorrer.
    Acho que é isso que entendo, você pode se preparar e combater uma situação ou aceitá-la e ficar reclamando de que só acontece com você depois.
    De qualquer forma vou dar mais uma pesquisada sobre o tema.
    Abraço

    Curtido por 1 pessoa

    1. Olá DUFRJ,

      Obrigado pelo comentário!

      Essa história é interessante. Já tinha ouvido falar que o Michael Phelps praticava muito essa coisa da visualização do sucesso: o cara se vê vencendo a prova desde a sala de preparação antes de subir no bloco. É um pouco diferente da visualização negativa, mas também ajuda bastante. Essa história, porém, é estoicismo puro da parte do Phelps.

      Esse livro foi definitivamente o melhor dos recursos que encontrei sobre o assunto, e recomendo bastante como “ponto de entrada” no Estoicismo. Mas só ler não adianta, temos que botar pra praticar todo dia. Eu mesmo continuo aprendendo sempre!

      Abraços e seguimos em frente!

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    1. Olá, Vagabundo.

      Provavelmente. O estoicismo é base pra muitas outras filosofias, ele mesmo sendo baseado em outra ainda mais extrema: o cinismo.

      Muitos coaches e “coaches” devem recortar coisas água-com-açúcar de várias filosofias diferentes e colar junto na “metodologia” que ensinam. Não acho isso ruim, per se, mas deveriam dar um pouco mais de crédito à fonte que tiveram.

      Mas também, eu nunca vi palestra de coach, então posso estar enganado.

      Abraços e seguimos em frente!

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    1. Olá, Rafael!

      Obrigado pelo comentário. Boa sorte na sua jornada com o estoicismo! Ele está muito mais na prática e – mais importante – na consciência diária do praticante do que ler a respeito mas não aplicar.

      Talvez eu escreva outros follow-ups deste post nas próximas semanas.

      Abraços e seguimos em frente!

      Pinguim Investidor

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