Confrontando o cotidiano 5 – a história mais triste que eu ouvi

No mês passado, um dos meus colegas de trabalho (chamarei-o de Marcos), gerente de um dos departamentos daqui, anunciou que estaria saindo do emprego em breve para retornar à sua cidade natal. Ele aproveitou o anúncio para também divulgar que, por conta do preço alto da mudança, gostaria de se desfazer da maioria dos bens que tinha na casa. Contatei ele e comecei a negociar algumas coisas interessantes pra casa. Marquei de ir buscá-las na casa dele.

Chegando próximo ao local, notei que a vizinhança era abastada, bem nobre mesmo de vista. Shoppings novos, chiques e grandes ao redor, grandes prédios residenciais de mais de 30 andares, e ruas bem-conservadas. Estava pensando comigo mesmo: “Marcos mora num lugar legal. Pena estar indo embora, mas deve ter feito um bom pé de meia neste momento.”

Encontrei com Marcos na entrada do prédio. Conversando com ele enquanto recebia as coisas, porém, descobri que a situação dele não era tão colorida quanto eu pensei. Muito pelo contrário; Marcos estava voltando para sua cidade natal porque já há anos mal conseguia se manter com o salário, gastando quase tudo o que ganhava e tendo aportes insignificantes. Nas semanas recentes, seus custos cresceram tanto que se tornaram impeditivos de continuar morando na cidade.

Comprei alguns dos móveis menores que ele estava se desfazendo e no caminho de volta não pude deixar de pensar em como esta era sem dúvida a história mais triste que eu já devo ter ouvido na vida. Um pai de família com um cargo bom sendo forçado a sair do emprego e se relocar pra uma cidade mais barata por conta dos custos insustentáveis do seu nível de vida. Como a situação de uma pessoa pode chegar a tal nível assim?

Falta de planejamento e frugalidade podem matar

Quando conversei com Marcos, ficou claro que mesmo embora ele tivesse um ótimo cargo dentro da empresa, havia lhe faltado uma boa dose de frugalidade para manter a residência num padrão sustentável e gerenciável para sobreviver.

Ele havia escolhido a casa num bairro de alto nível e num local com pouco comércio. Deduzi que esta escolha foi uma causa forte no alto baseline dos seus custos de vida. Conforto? Sim. Supermercado conveniente, ou pelo menos acessível de casa? Nope. Ele sempre tinha que usar algum transporte pra obter serviços ou fazer compras.

O prédio era lindo, mas consigo imaginar que o custo mensal facilmente era o dobro do meu. Pensei em como, mesmo com este conforto todo, cedo ou tarde a felicidade de morar em tal lugar iria também por água abaixo por conta da adaptação hedônica. De nada adiantaria todo este luxo se nos acostumamos com o tempo (ou queremos até mais).

E mesmo assim, embora este custo altíssimo todo, não via ele compensando frugalmente de forma alguma. Comia em restaurantes todos os dias, fazia viagens e já o peguei dizendo que não valia a pena cozinhar em casa já que alguns restaurantes baratos quase compensavam o preço.

Infelizmente, o saldo da conta não mente, e se você não compensar por alguns gastos, não será possível economizar, aportar e acumular patrimônio. A matemática não falha. A falta de frugalidade pode sim vir a ser um problema, e no caso dele, bem grave.

Não ter emprego não significa não ter renda

Outro fator que Marcos comentou que contribuiu com a decisão foi que antes de se juntar à minha empresa atual, ele e a mulher ambos estavam trabalhando, mas ao fazer a mudança, sua mulher não conseguiu arranjar um emprego novamente durante este período.

Ao cortar a renda combinada mensal pela metade, o impacto pode realmente ser sentido. Mas o fato da pessoa estar desempregada não a impede de obter renda, ou pelo menos tentar se aperfeiçoar em busca de um novo emprego. Consultoria remota, algum negócio online ou até mesmo informalmente como aulas de reforço são todos métodos que podem, sim, complementar ou suplementar a renda total da residência, que eu inclusive realizei quando eu mesmo estive no meu downtime.

Não estou falando que a pessoa desempregada se torna uma não-contribuinte ou um fardo para a residência. Como nosso amigo Vida Rica falou, o desemprego de um dos cônjuges não deve se tornar atrito na relação. Mas acredito ainda fortemente que as pessoas podem (e devem) tentar apostar em maneiras independentes de ganhar dinheiro, especialmente nos momentos fora do emprego integral.

As vezes podemos ter aquela idéia pré-concebida que “não estudamos para pegar empreguinho,” ou que nosso tempo vale mais do que poderíamos ganhar, mas a realidade é que o dinheiro recebido não te julga. E, dependendo da situação, esta renda extra pode fazer a diferença entre ficar rico ou pobre.

Lições do Pinguim

Esta é a parte do artigo onde eu digo que Marcos é um personagem fictício e que a história acima nunca aconteceu. Mas infelizmente este não é o caso. Marcos pediu as contas e voltou pra sua cidade natal há algumas semanas, e esta mesma história pode inclusive acontecer com qualquer um que não se resguardar ou acreditar que um salário alto é suficiente para se manter acima da água pra sempre.

A frugalidade, como expliquei num post anterior, é o músculo que permite a sobrevivência da pessoa sob condições financeiras adversas. Se você não pratica a frugalidade, dificilmente obterá uma reserva de emergência consistente, ou conseguirá acumular patrimônio de forma eficiente exceto sob um salário extraordinário. É necessário sim ser frugal.

Nosso ego pode tornar-se o maior inimigo do nosso patrimônio, especialmente se deixarmos ele crescer descontroladamente junto com a adaptação hedônica. Há um limite inferior do que precisamos para sobreviver, e não estou dizendo que temos que reduzir até o mínimo humanamente possível, mas para cima, não há limite de consumo. Eu particularmente tiro a minha maior satisfação sendo eficiente, e não há forma maior de se realizar isso do que a frugalidade.

Ser eficiente pode ser uma questão de vida ou morte financeira, e todos devem estar conscientes disso. Mantenham-se alertas sempre, e famintos para crescer!


Você conhece alguma história parecida com a do Marcos? Por que a pessoa chegou neste nível? Comentem aí!

Abraços e seguimos em frente!

6 comentários sobre “Confrontando o cotidiano 5 – a história mais triste que eu ouvi

  1. Essa história me lembrou de uma outra, que vi nos noticiários há alguns anos. De um empresário que morava num condomínio de alto-padrão, mas ao não conseguir se manter, matou a família e se suicidou em seguida. Eu sempre tive muito medo de aumentar demais meu padrão de vida antes do momento certo, porque sei como é difícil abaixar o padrão depois que a gente se acostuma a viver bem. Por isso vou aumentando aos poucos, sempre analisando e revendo se o passo que dei foi maior ou não. Beijo.

    Curtido por 2 pessoas

    1. Olá, Yuka.

      Nossa, não sabia dessa história não, mas parecia a versão do Marcos elevada a 10X, e me lembrou a história da Kate Spade também.

      https://pinguiminvestidor.com/2018/11/02/hedonismo-mata-e-empobrece/

      É o hedonismo atacando sutilmente de novo não? Quando nos damos conta da inflação voluntária do estilo de vida, é aí mesmo que temos que parar e reanalisar o que realmente é necessário na vida. Talvez eu voltando a praticar o minimalismo poderá ajudar a reavaliar o baseline dos meus custos também.

      Abraços e seguimos em frente!

      Curtido por 1 pessoa

  2. Simplicidade e Harmonia

    Pinguim Investidor,

    Um relato bem triste que mostra o quanto uma vida mais simples e frugal é importante para a manutenção da saúde financeira. Muitas vezes as necessidades desnecessárias acabam nos induzindo de foma tão sutil ao consumo que quase não percebemos.

    Esse post ilustra também a importância do “pague-se primeiro”. Não é fácil, mas essa estratégia aliada ao planejamento mensal e a reflexão sobre os hábitos de consumo são essenciais para uma vida equilibrada financeiramente falando.

    Um bom final de semana,

    Curtido por 1 pessoa

    1. Olá, S&H!

      Verdade, essa história realmente mostra o lado triste por trás de uma vida hedonística, como um cachorro que corre atrás do rabo. E as consequências são piores do que a frustração… pode-se afetar até a família próxima.

      O pagar-se primeiro me ajuda bastante também. É uma forma de me limitar automaticamente sobre o quanto posso gastar. Requer um pouco de disciplina no começo, mas uma vez adotado como hábito, o difícil é não fazê-lo.

      Abraços e seguimos em frente! Bom fim de semana pra você também!

      Curtido por 1 pessoa

  3. Alice

    Essa semana escutei um relato de uma professora que tinha comprado um AP e um carrão, mas não conseguiu manter os dois e optou por manter o carro pq não podia dirigir um carro inferior ao dos alunos.

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