Reflexões: o que aprendi no meu ano de desempregado

Ao invés de dar conselhos práticos ou motivar você para ganhar mais dinheiro, hoje é dia de contar uma história de vida do Pinguim Investidor. Vocês podem ler num dos meus primeiros posts a história dos meus aportes e como eu cheguei até aqui de maneira bem overview, mas sem muitos detalhes.

Muitos blogueiros e outros autores focam somente nas suas histórias de sucesso e escondem o “passado negro” que tiveram. Eu, por outro lado, acho que as partes mais interessantes da vida acontecem quando temos dificuldade e somos testados pela vida. Além disso, é extremamente inspirador ler sobre como uma pessoa superou tais dificuldades.

Hoje, me aprofundo sobre um período da minha vida quando eu me vi desempregado por um longo período, e o que aprendi quando estive durante esta fase difícil. Fiquei desempregado em 2016 no fundo da crise e só fui recuperar o emprego bem depois em 2017. Como sobrevivi, e o que aprendi neste período?

O background

Fiquei desempregado durante Outubro de 2016 a Maio de 2017. Dilma havia sido impedida, Temer tinha alguns meses de casa, Rio acabava de entregar as olimpíadas (e a conta pra cidade pagar), e a crise continuava rolando brava. Eu havia recebido um aviso prévio de algumas semanas antes de ser dispensado pelo meu empregador anterior, mas durante este tempo não consegui adiantar muito a procura de emprego, então saí sem vantagem significante neste respeito.

Eu tinha, porém, duas cartas na manga: a primeira era o seguro-desemprego que me cobriria por uns três meses, e a segunda era o FGTS a ser sacado. Era um pouquinho de oxigênio de emergência que me iria sustentar mais alguns meses enquanto me recuperava deste setback. Calculando os R$1600 mensais que teria por mais três meses e o que tinha na poupança, percebi que poderia sobreviver um bom tempo graças às minhas reservas financeiras. Nesta época, embora ainda não conhecesse o mundo dos investimentos, ainda era bem frugal e já havia acumulado uma reserva bem confortável.

Quando fui finalmente dispensado, deveria ter uns R$80k na poupança e direito a 3 meses de seguro-desemprego. O que eu aprendi nesse período?

O otimismo ajuda, o medo, não

Muitos possam utilizar o medo como uma forma de sempre se “motivar” contra algum possível acontecimento negativo, pensando como: não posso perder meu emprego! Se eu não conseguir esta promoção, não vou conseguir pagar meus cursos extras! Se eu não passar nesse concurso, nunca vou conseguir seguir a carreira para a qual tanto estudei! Se eu não passar nessa seleção, vou ter que voltar pra casa dos meus pais! Colocam a situação que mais temem na frente da cara e se motivam a correr contra ela.

Embora isso pode ser extremamente motivacional para alguns, a experiência que tive me provou o contrário. Numa época quando muitos estão tendo sentimentos ruins pelo momento difícil, eu consigo me lembrar de ótimas memórias que tive durante esses meses de downtime.

Por exemplo, no começo do período, me lembro da idéia de que teria umas pequenas férias para esvaziar a cabeça, pensar nos meus planos e, possivelmente, explorar novas oportunidades de carreiras. E isso realmente chegou a acontecer: antes de recuperar permanentemente o meu trabalho, fiz um freela como webdesigner. E consegui usar o tempo livre para relaxar do meu trabalho (estressante nas últimas semanas) e refrescar a cabeça, mesmo que tenha sido até um pouco longo demais.

Este otimismo me ajudou muito a manter minha saúde mental nesse período. Ele me ajudava a enxergar um lado bom ou oportunidade escondida por trás de cada decepção ou entrevista negada que me aparecia. E, assim, ao recapitular, acabo tendo que esforçar para me lembrar de algo ruim durante este tempo.

Frugalidade como habilitador de sobrevivência

Outro skill crucial que me ajudou a passar por este período minimizando minhas perdas foi a minha natural frugalidade. Nesta época, eu ainda não tinha descoberto o mundo dos investimentos, mas poupar dinheiro me veio naturalmente desde criança.

Durante este período, a minha frugalidade tomou uma forma um pouco diferente; o que, antes, era uma forma de prazer ao ver o meu patrimônio aumentar, se tornou uma forma de garantir a minha sobrevivência estendida já que não haviam horizontes à vista. Se – por analogia – o meu patrimônio era uma canoa com um pequeno furo em meio ao oceano imenso, a minha frugalidade era o balde que jogava a água pra fora.

Minhas técnicas usadas nesta época não foram nada extraordinárias ou inovadoras, mas algumas coisas, que hoje pra mim são padrões, acabaram trazendo algumas experiências surpreendentes:

  • Ao sair da empresa, havia conseguido uma boa reserva retroativa no meu vale transporte porque já há anos utilizava uma rota alternativa que me economizava algumas dezenas de reais por semana. Consegui continuar a usar esta reserva ainda por uns bons 5 meses de transporte público
  • Utilizei a infraestrutura da cidade como minha própria academia. Havia à minha disposição uma praia para correr, estação de exercícios calistênicos, escadas do meu próprio prédio e pesos livres que já tinha em casa. Não me tornei o Arnold, mas a minha forma e saúde foram mantidas.
  • Cozinhar em casa se tornou motivo de apreciação. Agora, não só eu me alimentava melhor e mais barato, mas também senti que estava aprendendo uma nova habilidade importante para mim.
  • Meu consumo de álcool zerou. Literalmente. Passei semanas sem beber uma gota, hábito que carrego comigo até hoje.

No final da história, meu patrimônio deve ter sofrido uma redução de uns R$15000 total, mas estes hábitos me protegeram de um dano muito pior.

Bons hábitos preservam sua saúde melhor que um plano de saúde a remedia

Meu maior medo durante este tempo foi sem dúvida a minha saúde. Quando percebi que iria ficar sem plano de saúde empresarial, comecei a me preocupar e pensar nos cenários do e se.Acabou que, uma vez no desemprego em si, parei de pensar nisso e foquei na busca de emprego, e conversamente todos estes meus receios foram em vão.

Cheguei a ficar doente uma vez só, com um resfriado e febre, que se durou uma semana foi muito. Como eu me tratei? Descanso, água, dieta balanceada e muito exercício físico aeróbico. Acabou que os meus hábitos de exercício e saúde não só me preveniram a maior parte das condições, mas como investimento, me trouxeram mais retorno que qualquer plano de saúde e remédio poderiam remediar.

A lição ficou comigo posteriormente também. Mesmo depois de empregado e morando em diversas outras condições extremas (apartamentos pequenos, chuvas torrenciais, neve, geada, etc), continuo carregando o conceito da “academia portátil caseira” comigo, me exercitando em parques, escadas e até mesmo o chão da minha sala.

Um bom parceiro é a melhor companhia que você pode ter

Last, but not least, definitivamente o fator que mais me auxiliou durante esta fase de desemprego foi a Sra. Pinguim. Se eu consegui sair daquela fase sem enlouquecer ou ficar deprimido foi por causa da sua companhia e, mais importante, seu apoio.

Quase qualquer pessoa pode te trazer uma boa companhia, especialmente se envolve cerveja ou bar, mas pouquíssimas podem te trazer o tão crucial apoio para superar, transformar, e atingir os objetivos mais íntimos ou ambiciosos que você tem. Nesse caso, a minha mulher foi esta peça-chave da jornada.

Novamente, com a analogia, eu era o jogador, mas era ela a treinadora, coach e advisor do meu time. Consultava com ela algumas propostas de emprego, ela me ajudava a refazer e melhorar o meu currículo e procurar vagas melhores. E eu, orientado, prosseguia e aprendia no caminho.

O apoio dela ainda se estendia mais longe porque ela fecha comigo nos meus hábitos frugais. Quando saíamos durante esta época, ir pra parque fazer piquenique ou fotos legais, tocar violão na praia não eram programas “pobres,” eram programas de valor. Procurávamos os programas 0800 ou baratos e nunca tínhamos problemas. Às vezes íamos a shoppings simplesmente para visitar livrarias e folhear alguns livros, rir de algumas vitrines bizarras e tomar um sorvete na varanda.

Se nossos valores não se alinhassem, é bem provável que não estaríamos juntos hoje, ainda mais durante numa fase de vacas magras. Eu agradeço a ela todos os dias até hoje!

Conclusão

Recuperei minha renda trabalhista vagarosamente em Abril de 2017 como um analista de projetos de TI, após meses e meses de procura e entrevistas sem sucesso. A história daquela fase teve um final feliz, sim, e o epílogo foi e está sendo ainda melhor.

Com o meu conhecimento estóico de hoje, porém, eu entendo que fases iguais ou piores à aquela poderão a vir. Não é pessimismo, e sim realidade. Com a experiência que tive, aprendi novas formas de sobreviver a tais fases, incluindo uma carta extra na manga desta vez: renda passiva oriunda de investimentos. Não desejo algo do gênero para ninguém, nem a mim mesmo, mas a experiência me ajudou a crescer pessoalmente.

E vocês, finansfera? Já passaram por algum aperto do gênero? Quais foram as estratégias de vocês?

Abraços e seguimos em frente!

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7 comentários sobre “Reflexões: o que aprendi no meu ano de desempregado

    1. Opa, Marcelo!

      Obrigado pelo comentário cara. Muita gente, especialmente nas redes sociais, prefere esconder as manchas da vida e só compartilhar as partes boas mesmo. Eu acho que um pouco de sinceridade assim é a melhor coisa. Talvez eu escreva mais prosas assim no futuro!

      Abraços e seguimos em frente!

      Curtido por 1 pessoa

  1. Simplicidade e Harmonia

    Seu relato mostra bem o quanto a consciência e o hábito da frugalidade podem fazer muita diferença em momentos como esse, ainda mais porque a recolocação no mercado de trabalho tem sido cada vez mais difícil e concorrida.

    “Bons hábitos preservam sua saúde melhor que um plano de saúde a remedia.” – Sua frase ficou perfeita. Vou guardá-la para postar futuramente em meu blog – com os devidos créditos.

    Um bom final de semana,
    simplicidadeeharmonia.com

    Curtido por 1 pessoa

    1. Olá S&H,

      Obrigado pelo comentário! É verdade, ouvi outro dia um vídeo do Eric Thomas onde ele diz que você é o resultado dos seus hábitos; se você não é um milionário, é porque você não tem os hábitos que os milionários têm.

      Meus hábitos frugais me levaram a uma vida… bom, frugal! Fico apenas imaginando como este mesmo período teria sido se eu tivesse o mindset de hoje, de investir e empreender.

      Que bom que gostou da frase. Fico feliz em ter te inspirado, no fundo este é o meu objetivo principal!

      Abraços e seguimos em frente!

      Curtido por 1 pessoa

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