O que um vendedor imobiliário me ensinou sobre independência financeira?

Como almoço dentro do escritório, geralmente na minha mesa, tenho o hábito de usar o horário de almoço como extensão dos meus estudos e aprendizado financeiro. Geralmente leio ou assisto vídeos do YouTube durante este tempo que muitos jogam fora pra ficar no celular ou vagando vendo lojas na rua.

Eis que me surge um sujeito ao fim de um dos vídeos que me parece interessante. O cara é enérgico, extrovertido, fala alto e com certeza nas frases. Típico vendedor e promotor de marketing, pensei comigo. Mas a proposta dele hoje é diferente. Ele está treinando a equipe de vendas dele, mas não sobre vender; ele quer que ela aprenda qual a razão de você, como vendedor, estar vendendo, como a venda é a única forma de alcançar segurança ao indivíduo na forma de independência financeira.

Eu tinha acabado de conhecer Grant Cardone, e as lições que ele escreveu no quadro branco dele são o assunto deste post.

“1 milhão de dólares não é nada hoje”

Grant abre o treinamento com uma afirmação simples, mas desafiadora: 1 milhão de dólares não é nada hoje em dia. Especificamente, ele atribui esta informação ao bilionário Peter Thiel, co-fundador do Paypal, que single-digit millionaires correm perigo no mundo de hoje, com custos inflados e um estilo de vida que pode corroer o patrimônio rapidamente.

Segundo ele, quem tem apenas um milhão hoje em dia, mesmo mantendo um padrão de vida não ostentante, irá drenar toda a sua reserva financeira em algumas décadas, e isso não contando com imprevistos ou outras emergências financeiras. Portanto, ele conclui que uma pessoa com apenas 1 milhão de dólares é financeiramente insegura. Quanto o aspirante à IF deve ter então?

10 milhões de dólares.

Esta, segundo Grant, é a meta (descrito como target) que alguém precisa ter para viver seguramente no mundo de hoje. Um pouco alta demais, talvez? Eu costumava concordar, mas o ponto de Grant aqui não é promover a ganância e sim o contrário: muitas vezes as pessoas buscam o FIRE mais rápido possível e não levam em conta muitas margens de segurança. Ou descobrem depois que o estilo de vida comprimido que viveram pra alcançar o FIRE não lhe agradam na aposentadoria, mas não podem expandir sem comprometer o patrimônio.

O primeiro passo para ser rico, então, é esse: estabeleça um target ambicioso e com margem suficiente para emergências ou expansão do estilo de vida.

As lições do treinamento de Grant Cardone

Economia proativa e adaptiva

O próximo passo segundo Grant é estabelecer uma economia cavalar. Segundo ele, 40% do salário líquido é o mínimo que você deve economizar para alcançar o seu objetivo (os 10 milhões de dólares que você definiu acima, lembra?) de forma realista.

Como você deve realizar isto? Uma das formas que ele propõe é minimizar ostentações. Você deve viver a vida de uma forma mais financeiramente eficiente. Por exemplo:

  • Você tem uma casa enorme e com parcelas e IPTU caríssimos? Desfaça-se dela e vá morar num lugar mais humilde que te sirva melhor.
  • Seu carro é um utilitário deste ano que bebe mais que o pinguço do boteco da esquina? Venda-o e compre um carro econômico usado e em boas condições.
  • Pare de querer comprar uma roupa nova a cada mês, ou impressionar alguém que é irrelevante pra você.

Até aí a recomendação é genérica, mas Grant lança uma segunda forma de olhar o conceito de “economizar.” O raciocínio é o seguinte: você tem um limite máximo de quanto pode economizar – custos como aluguel e contas de luz e comida têm um mínimo necessário. Portanto, para aumentar a economia além deste limite, você tem que aumentar a receita que é gerada.

Por exemplo, se você tem uma renda de R$5000, precisa economizar no mínimo R$2000 e gastar no máximo R$3000. Porém, os seus custos são de R$3800 ao mês, e já está difícil cortar as coisas do seu lado. A proposta de Grant é: aumente a renda que você tem para no mínimo R$9500, para que a partir daí seja possível sempre aportar 40% sem sacrifícios. A economia proativamente força a renda a crescer.

Com um aporte mensal regular de no mínimo 40%, você terá uma boa margem para começar a operar no próximo passo, que é:

Broke-Invest“: crie escassez artificial colocando o dinheiro para trabalhar para você

Grant descreve um truque que ele chama de Broke-Invest, que é uma forma de você eliminar duas tentações grandes de uma só vez. A estratégia é simples: encontre uma forma de investimento eficiente, aplique nela todo o dinheiro que aportou na seção anterior, e não olhe para trás. A parte sobre qual é a melhor forma de investir ele deixa a critério do ouvinte.

O grande lance deste approach é a escassez que ele cria no mindset da gente.Você mata a tentação de querer gastar porque não tem dinheiro para poder gastar; ele já está todo investido. Por isso a parte do “Broke.” A sua dualidade é que você está falido porque procura enriquecer o mais rápido possível.

Eu já havia visto uma mentalidade parecida, com pessoas fazendo do montante da IF o seu auto-endividando e dizendo algo como: “desculpe, não posso ir no happy hour hoje. Tenho uma dívida de 1 milhão pra pagar e não posso falhar.” Meio extremo, talvez? Se funcionar pra você, beleza!

Cash flow: se o seu dinheiro não gera mais dinheiro, ele é inútil

A filosofia de Grant é que dinheiro apenas por si é inútil. Para ser útil para você alcançar a independência financeira, o dinheiro deve gerar mais dinheiro. Por isso ele explica: “Cash is useless. Cash flow is king.”

Por isso Grant reforça: não basta apenas você juntar o dinheiro, é necessário aportá-lo na forma de algum investimento o mais rápido possível. E assim, com o dinheiro fazendo mais dinheiro, obtem-se renda passiva, que é o ponto crucial para a independência financeira.

Quanto exatamente de renda passiva é o suficiente? Grant recomenda uma renda igual, senão maior do que a sua renda salarial atual. Um pouco mais ambicioso que as demais recomendações de quem promove o FIRE, talvez? Pode ser, mas o importante aqui são as considerações de segurança que este approach promove ao manter a renda passiva igual ao salário:

  • Você pode manter o mesmo padrão de vida que está acostumado já a viver há anos ao invés de ter que comprimí-lo depois.
  • Você mantém renda o suficiente para continuar aportando ainda passivamente do jeito que faz atualmente, fazendo o seu patrimônio crescer até na aposentadoria.
  • Você possui uma margem de segurança mensal que pode utilizar, ao invés de sempre ter que recorrer à reserva de emergência e refazê-la nos meses seguintes.

Portanto, mesmo que seja um pouco mais ambiciosa, este objetivo em renda passiva traz bem mais segurança do que um FIRE com tal planejamento pouco considerado.

Aplicabilidade ao Brasil

Infelizmente, Grant nos parece mais um motivador do que planejador financeiro.

A realidade do Brasil é diferente da equipe que Grant buscava treinar. Especificamente, num país extremamente consumista como os EUA ou boa parte da Europa, enriquecer (ou pelo menos poupar) significantemente é possível apenas modificando alguns hábitos ineficientes. No Brasil, dizer para uma pessoa que “é fácil economizar, é só ir morar numa casa menor” pode não ser tão realista assim. Os salários médios também são muito inferiores aos dos EUA, então simplesmente reduzir os gastos supérfluos pode não ser tão efetivos quanto lá.

Igualmente, quanto aos 1 milhão de dólares não sendo suficientes, ele se refere às pessoas que pensam em se aposentar com esta quantia e não viver dos proventos reinvestidos, mas nós do FIRE já sabemos que este não é o caminho a ser seguido. Ainda assim, é importante reconsiderar as margens de segurança quando planejamos: talvez 10 milhões de reais sejam um pouco demais para tentar alcançar e se aposentar cedo, mas será que apenas 1 milhão ou menos é suficiente? Fica o dever de casa lançado!


E aí pessoal? Vocês acham que um vendedor do mercado imobiliário conseguiu ensinar alguma lição nova para vocês investidores? O que vocês acharam dos pontos que ele compartilhou? comentem aí!

Para quem quer saber em mais detalhes, eis aqui o link do vídeo dele em questão que assisti:

Abraços e seguimos em frente!

5 comentários sobre “O que um vendedor imobiliário me ensinou sobre independência financeira?

  1. Rafaela Contando

    Olá, Pinguim!
    Eu ainda não conhecia o Grant. Fiquei interessada em assistir alguns vídeos para ver as explicações das ideias que ele propõe.
    E gostei bastante do seu texto apresentando-o, especialmente porque você fez algo que eu considero muito importante (e que se vê pouco por aí): dedicou um espaço para falar sobre a diferença entre o cenário do qual o Grant parte e a situação que temos no Brasil.
    É realmente legal buscarmos inspirações de fontes diversas para trilharmos nosso caminho de independência, mas sempre conscientes acerca das adaptações que se fazem necessárias.

    Um abraço!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Oi Rafaela,

      Que bom que gostou do post! Eu mesmo o descobri quase que por acaso, já que o YouTube hoje tá saturadíssimo com vídeos motivacionais e de educação financeira.

      Acho que o pé no chão é importante para averiguar a possibilidade atual, mas não deve “cortar as asas” da pessoa. Por isso, a frugalidade nos EUA que ele menciona é importante, sim, mas no Brasil eu acho que o aumento da renda é muito mais significante.

      Mas também podemos olhar pelo outro lado e apreciar a motivação de outra maneira: sonhar grande, aumentar o patrimônio, aumentar ativamente a economia, etc.

      Abraços e seguimos em frente!

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