O que um Marshmallow pode dizer sobre o seu sucesso

Você é criança e está na sala de uma casa de um amigo dos seus pais. Os adultos estão lá, jogando conversa fora sobre assuntos de gente grande, enquanto você não consegue tirar os olhos do que, no momento, parece ser o Santo Graal. Há uma doceira cheia de marshmallows na mesinha de centro da sala.

Conversa vai e conversa vem, o amigo dos seus pais percebe você vidrado na doceira e finalmente se posiciona: “ô, fulaninho, que é que tanto você olha pro vidro? Você gosta de marshmallow, é?

Você simplesmente balança a cabeça timidamente. “Ah, que bonitinho! Por que não tinha me falado isso antes?” A vitória parece certeira para você quando ele se movimenta para abrir a doceira e liberar o acesso quando sua mãe, para o seu sofrimento, interrompe:

“Péraê… alto lá, fulaninho, é quase hora do almoço já. Se você comer doce agora não vai almoçar!”

Droga! Estávamos tão perto! Mas tudo não está perdido ainda. Seu pai tenta apaziguar o conflito aproximando todos de uma solução comum:

“Calma gente, por que a gente não faz o seguinte: como está quase na hora do almoço, o fulaninho pode comer um só marshmallow nesse momento. Mas, se ele esperar o almoço, poderá comer quantos marshmallows tiverem aí na doceira.” Sua mãe concorda.

O que você faz? Come um marshmallow agora ou espera para poder comer mais depois?

Incrivelmente, a sua resposta como criança para esta situação pode ditar o seu sucesso na vida, como demonstrado num experimento psicológico em Stanford.

O experimento do marshmallow de Stanford

Em 1970, na universidade de Stanford na Califórnia, uma equipe de psicólogos testou 600 crianças, cada uma sozinha numa sala com um marshmallow numa mesa e a seguinte condição: você pode comer um marshmallow (ou outro doce em alguns casos) agora, mas se esperar 15 minutos, poderá comer dois.

No experimento original, apenas um terço das crianças escolheu e conseguiu esperar os 15 minutos para receber a recompensa, enquanto que a maioria ou comeu imediatamente o marshmallow, ou não resistiu e comeu antes dos 15 minutos de condição.

Esse comportamento já era esperado. Afinal, não podemos julgar um ato de uma criança de seis anos, certo?

Supreendentemente, errado.

Em alguns follow-ups aos participantes deste mesmo experimento, os pesquisadores descobriram que as crianças que optaram por esperar o tempo necessário para comer dois marshmallows tiveram uma vida muito mais bem sucedida:

  • Em 1988, 18 anos após o experimento inicial, os pais destas crianças que esperaram descreveram o desenvolvimento delas na adolescência como significantemente mais avançado.
  • Em 1990, 20 anos depois, descobriu-se que as crianças que esperaram o segundo marshmallow obtiveram notas significantemente mais altas no SAT (equivalente ao vestibular dos EUA).
  • E em 2011 uma análise neurológica dos participantes originais mostrou diferenças visíveis na forma da qual o cérebros de quem optou por esperar funciona.

Tudo isso apenas por causa de um marshmallow? Não.

Tudo isso por causa de um marshmallow a mais.

O autocontrole traz retorno

A grande diferença entre as crianças que participaram do experimento se resume ao autocontrole para atrasar a sua gratificação.

O controle das nossas emoções e impulsos pelo raciocínio e lógica pode ser um fator crucial, e as vezes até mesmo o único fator, para o sucesso na vida. É apenas através do autocontrole que podemos julgar uma escolha ou situação de forma racional e analisar os fatos que envolvem a decisão – e não as emoções.

Muitos gastos que nos envolvem regularmente são frutos das emoções que nos controlam em determinada situação: você está com fome no supermercado e vê aquele pacote de biscoitos. Você vai ao shopping almoçar e passa na frente da sua loja favorita. Está passando por uma fase ruim da vida e vê anúncios de bebidas.

Uma coisa que o estoicismo nos ensina é que nós como seres racionais devemos utilizar a nossa bênçâo da lógica para viver. O autocontrole é um fruto direto disso. Ao optar por passar uma gratificação imediata para depois, você segura a adaptação hedônica e se dá o tempo para aprender a apreciar a sua vida como é neste exato momento, podendo, inclusive, concluir que não precisa desta gratificação para viver bem.

Para quem está perseguindo a IF, estas pequenas mudanças pra melhor ao longo do tempo se traduzem em economias enormes por conta do custo de oportunidade, e podem vir a fazer a diferença entre se tornar rico ou não.

Autocontrole é um recurso finito

Outra lição do experimento é que temos uma quantidade finita e limitada de autocontrole. Isso pode ser visto nas crianças que resistiram bravamente durante algum tempo, mas finalmente sucumbiram ao desejo e comeram o marshmallow antes da hora. Vocês podem imaginar a decepção delas ao descobrirem que só faltavam 5 minutos parra que pudessem ganhar um segundo marshmallow!

Podemos combater isso aumentando o custo de fazer a escolha da carne fraca. Por exemplo, muitas das crianças que conseguiram passar no teste viraram suas cadeiras de costas pra mesa contendo os doces, ficaram no canto da sala do experimento ou brincaram com o marshmallow como se fosse um brinquedo para passar o tempo. Nós podemos fazer coisas parecidas com as nossas próprias escolhas do dia a dia:

  • Se vocẽ não tiver pacotes de biscoitos ou salgadinhos em casa, terá que ir até algum supermercado pra comprá-los quando o desejo bater às 10 da noite. Vale a pena?
  • Se você manter o seu despertador do outro lado do quarto, terá que levantar e caminhar para desligá-lo de manhã. Vale a pena voltar a dormir então?
  • Se você traz a marmita de casa pro trabalho, não irá caminhar na frente de lojas e outros comércios para ir almoçar. Vale a pena sair depois no sol do meio-dia só pra ver a vitrine?

Seguindo estratégias como estas descritas, economizamos nosso autocontrole por não estar diretamente fazendo escolhas: simplesmente armamos situações onde não temos escolha.

Lembre-se: nada é um sacrifício se você não a vê como um sacrifício.

Conclusão

Manter a lógica e racionalidade durante uma escolha, segurar as emoções e hedonismo, e atrasar desejos e gratificações imediatas lhe trarão sucesso – e isto está comprovado pelo experimento em Stanford.Falar é mais fácil do que fazer, obviamente, mas podemos começar com passos pequenos e usar o truque de aumentar o custo para forçar hábitos bons a se tornar costume.

E vocês, comeriam o marshmallow agora, ou esperariam pra comer dois depois?

Abraços e seguimos em frente!


Este post foi inspirado pelo livro Switch: how to change things when change is hard de Dan e Chip Heath. Quem sabe eu não faço uma resenha depois?

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6 comentários sobre “O que um Marshmallow pode dizer sobre o seu sucesso

  1. Simplicidade e Harmonia

    Pinguim Investidor,

    Esse teste é muito interessante. Os resultados demonstram bem que o autocontrole é essencial para o alcance dos objetivos.

    Muitas vezes as pessoas dizem algo como: “mas se eu investir 200, 500 reais por mês não vou chegar a lugar nenhum”.
    Com esse tipo de percepção perde-se a oportunidade de aprender o quanto a disciplina e o autocontrole são importantes na vida, além da reflexão sobre o consumo e despesas, que provavelmente fará com que a pessoa pense mais sobre seus hábitos de consumo.

    Boa semana,

    Curtido por 1 pessoa

    1. Olá, SH!

      Verdade, as pessoas acham (ou querem) que enriquecer acontece da noite pro dia, geralmente seguindo algum evento estrondoso como ganhar na loteria ou ser “descoberto” por alguma celebridade.

      E aí que justamente está o pulo do gato: o custo de oportunidade que elas pagam por não investirem os 200 reais ao mês que sejam pode facilmente chegar a R$150.400 (200 x 752) ao longo de dez anos de investimento regular. Exatamente como falei no meu post anterior.

      Autocontrole é, sim, o diferencial entre ser pobre ou ser rico!

      Abraços e seguimos em frente!

      Curtido por 1 pessoa

  2. Olá, Pinguim!

    Eu gosto muito do experimento das crianças com o marshmallow. Inclusive, quando percebo que estou perdendo o foco em alguns bons hábitos, eu me lembro dele e dos resultados para me animar a voltar aos trilhos.

    Além disso, a ideia dificultar a execução das escolhas que fazemos nos momentos de fraqueza é ótima. Pouco tempo atrás, estava lendo um post sobre “ambiente” x “força de vontade” no blog do James Clear e comecei a reparar em situações que estive vivenciando em maio: com a história de me mudar de emprego/cidade e atendendo a vários compromissos por causa disso, acabei passando quase o mês inteiro com poucos itens na despensa (quase não cozinhei em casa) e houve várias noites nas quais eu pensei “se eu tivesse tal comida na despensa, teria levado para a cama para comer enquanto leio só por gula” e foi justamente por não tê-las à minha disposição em casa que eu não caí nenhuma vez na escolha ruim – afinal, zero por cento de chance de tirar o pijama e ir ao mercado apenas por uma broinha de fubá ou um bolinho de coco.

    Um abraço!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Olá, Rafaela!

      Interessante a observação, eu acho que funciona assim mesmo. Eu comecei a sempre pensar dessa forma, meio causa e efeito: se eu não sair de casa, não vou pegar o carrinho de compras. Se eu não colocar no carrinho, não vai entrar na minha casa. E se não entrar na minha casa, não vou encontrar pra comer.

      Imagino que pessoas que têm um autocontrole perfeito não precisam ficar pensando sobre isso, mas a maioria de nós humanos conhece a tentação.

      Abraços e seguimos em frente!

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