Educação Financeira #3: Investir não tem prazo

Qual o melhor investimento que posso fazer pra seis meses?

A alíquota do IR é muito significante pra menos de um ano?

Devo investir no Tesouro Selic ou IPCA+ 2035? Não sei se posso esperar tanto tempo!

Estas são as perguntas erradas a se fazer.

Quando iniciei no mundo dos investimentos, tinha várias concepções erradas quanto o que significava investir. Acho que todo mundo passa por essa fase de transição de sardinha querendo procurar bons rendimentos, etc até propriamente aprender a investir de forma correta.

Felizmente, esta época passou depois de ter tomado algumas bordoadas da comunidade de finanças pessoais, e formei os conceitos que tomo de base para as minhas decisões financeiras. Alguns conceitos eram simples e até mesmo óbvios, como diversificação dos ativos, risco x retorno, etc. Outros levaram muita reflexão e filosofia pra eu finalmente entender.

Um dos conceitos mais difíceis de aprender pra mim foi que investir não tem prazo e que você não deve se preocupar tanto com o prazo do investimento quanto com a sua liquidez.

Parte da dificuldade em entender isso se dá do fato que ele é a princípio extremamente contra-intuitivo com a crença popular – se eu investi hoje, tenho que receber daqui a algum tempo, certo? Neste post vou explicar como eu entendi este conceito, e como ele é fundamental para o investidor de longo prazo.

Delayed spending” não é o approach correto

Uma das primeiras coisas que li sobre o conceito de investir foi que quando as pessoas investem, elas simplesmente estão atrasando os seus gastos de hoje para um tempo posterior, quando elas vão precisar utilizar esse dinheiro investido.

Assim, por exemplo, uma pessoa troca não gastar R$100 num jantar chique hoje por gastar R$1000 numa viagem legal daqui a 15 anos depois de ter investido tais R$100. Isso é chamado de delayed spending no Inglês.

Delayed spending pode ser um bom artifício para convencer iniciantes a começar a poupar e consertar suas vidas financeiras, mas não é a abordagem mais correta para descrever o processo de investir.

Ao retardar algum gasto geram-se duas expectativas:

  1. O gasto precisa, de fato, acontecer em algum momento futuro
  2. Este momento futuro necessariamente precisa chegar para justificar o investimento

Ponto número 1 é uma falácia, porque se assume que gastos supérfluos precisam acontecer. Quem pratica a frugalidade sabe que os gastos que não estão alinhados com os seus valores podem e devem ser eliminados.

Em outras palavras, se um jantar chique não lhe agrega valor pessoal (i.e. se você faz isso só pra fazer um social ou agradar o parceiro), você não deve pensar no investimento como um sacrifício para se recompensar depois. E nem deve demandar uma viagem internacional depois só porque “merece” depois de “todos esses anos esperando.”

Ponto 2 também é uma falácia. Você não pode prever o futuro ou quando irá precisar utilizar o dinheiro investido. É por isso que precisa ter uma reserva de emergência para cobrir eventuais incidentes. Além disso, se o seu objetivo ao investir é puramente enriquecer, precisa saber que não é o investimento, seu prazo ou rentabilidade que vai lhe deixar rico.

Poupar e investir são coisas diferentes, prazo é uma de suas diferenças

Embora o delayed spending não funcione ao investir, há uma outra aplicação onde ele se torna importante: economizar. A economia, sim, precisa de uma meta clara como o método Kakeibo ensina.

A economia e o investimento possuem uma relação oposta quando se trata de prazo. Na economia, o objetivo bem definido possui um prazo para ser atingido. Por exemplo na formação da reserva de emergência, você precisa juntar um equivalente a pelo menos seis meses do seu custo de vida, e precisa ser feita o mais rápido possível para que comece a investir logo em seguida.

Igualmente, se você tiver como objetivo comprar um carro ou computador novo, deverá economizar o suficiente para comprá-lo. Procurar um investimento para “acelerar” o acúmulo do dinheiro nesse caso é fútil, pois o grande aliado do investidor (o tempo) não irá conseguir ajudá-lo significantemente, e a quantia é pequena demais para fazer diferença. A sua melhor escolha é economizar o máximo para conseguir alcançar o objetivo no prazo mais curto possível.

A relação com o prazo entre poupar e investir é praticamente diametricamente oposta.

Não se usa o patrimônio, apenas os juros e proventos dele

Outro mito que dificulta o entendimento de que investir não tem prazo é a crença que um dia todo esse dinheiro deve ser aproveitado, senão terá sido tudo em vão, certo?

Errado. No FIRE, não se utiliza o patrimônio, e sim os proventos gerados por ele.

Uma das minhas guidelines de investimento diz que “o melhor jeito de usar dinheiro é pra ganhar mais dinheiro”. E o ponto chave daqui é que os proventos e juros são providenciados pelo principal do seu patrimônio, seja ele renda fixa ou variável, portanto se você consumir o seu patrimônio, perderá a capacidade de viver da renda passiva que ele pode oferecer.

E o que a idéia de prazo tem a ver com esta história? Simples. O seu objetivo é acumular capital suficiente para poder sobreviver apenas dos proventos gerados por ele, e não juntar para comprar alguma coisa. Portanto, o “prazo’ do investimento é irrelevante; idealmente, seria até infinito. A sua única preocupação com o vencimento é que você terá que reaplicar o seu capital novamente para continuar a render.

Liquidez importa

Já que postulamos que o investimento não tem prazo, voltemos a atenção num conceito que continua importante: a liquidez.

A liquidez é relevante indica quão rápido você poderá resgatá-lo caso precise complementar a reserva de emergência quando esta não for suficiente. Portanto, o investidor não deve se preocupar com o vencimento de um investimento (pois não importa quando o dinheiro é retornado), mas sim com um bom planejamento de reserva financeira, e a liquidez de resgate do investimento.

Não há uma regra específica sobre isso, mas quanto maior a liquidez, mais seguro você estará, pois, caso necessite por algum motivo resgatar parte do capital investido, seja por emergência ou oportunidade, conseguirá rapidamente convertê-lo de volta a dinheiro líquido.

O nosso amigo Vida Rica recentemente escreveu um intensivo sobre a liquidez que vale a pena checar se você estiver iniciando nos investimentos.

Você comeria a sua galinha dos ovos de ouro?

Concluo este post com o método que considero a melhor forma de ensinar: uma analogia. No FIRE, os seus investimentos – o seu patrimônio – são como a galinha dos ovos de ouro: você precisa engordar a galinha e criá-la até uma certa maturidade para colher os frutos do investimento (a renda passiva).

Você seria capaz de almoçar esta galinha dos ovos de ouro uma vez que ela começasse a produzí-los? E se ela não tivesse produzindo ainda?

Seria no mínimo insano considerar trocar a certeza do retorno (os ovos de ouro mensais) por um desejo imediatista (satisfazer a fome agora). E ainda assim, “pensar no prazo” promove exatamente este tipo de mindset.

Não sacrifique sua galinha dos ovos de ouro precocemente!


E vocês, pensam no prazo quando vão investir ou consideram mais a liquidez? Escrevam nos comentários!

Abraços e seguimos em frente!

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10 comentários sobre “Educação Financeira #3: Investir não tem prazo

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