Confrontando o cotidiano 4 – O cafezinho de R$60.000,00

Semana passada no trabalho, estava tomando meu cafezinho de tarde quando olhei bem pra caneca e comecei a refletir. Vi as pessoas voltando do almoço trazendo copos do Starbucks pras suas mesas e não pude deixar de pensar.

Lá se vão 14 reais da carteira, transformados em açúcar, leite e um tiquinho de café aguado…

E aí então voltei a atenção ao meu copo. Lá estava um nescafé solúvel que havia preparado eu mesmo com a água quente disponível na copa (meu escritório não fornece café aos empregados, apenas água e maquininhas de refrigerantes com bebidas). Admitidamente não é o melhor café que tomei, mas, depois de fazer algumas contas rápidas, percebi que era o café de maior valor que já tomei na vida.

De fato, este café me economizará mais de sessenta mil reais na vida.

O vilão invisível: custo de oportunidade

Quem já leu bastante sobre finanças já conhece bem essa minha história que acabei de sumarizar. O indivíduo toma um cafezinho que custa X reais todo dia. Um dia, após descobrir a educação financeira, resolve colocar no papel o quanto este hábito está te custando no fim do mês e pula pra trás com o resultado. Decididamente resolve cortar o café imediatamente, e começa a aportar o que descobriu ser um rombo em sua carteira. THE END.

A magnitude dos hábitos pequenos, mas repetidos frequentemente são realmente um conceito poderoso e que muitos do FIRE já conhecem. Porém, há mais um conceito importante e menos considerado que muitos adeptos esquecem nesta história: o custo de oportunidade.

O custo de oportunidade é exatamente o que o nome diz: a quantia que você perde por não ter feito uma outra escolha. Nesse caso, o custo de oportunidade envolvidos com o cafezinho da tarde é não poder aportar este dinheiro e investí-lo.

À primeira vista, não parece difícil calculá-lo; basta apenas aplicar uma álgebra simples e calcular o custo de um cafezinho diário x 5 dias x 4 semanas x 12 meses. Porém, este cálculo básico não leva em consideração a oportunidade perdida – em outras palavras, o quanto que este mesmo custo poderia ter te rendido se você tivesse investido ao invés de gastar.

Por exemplo:

  • Quanto você poderia estar recebendo a mais por mês se comprasse FIIs com o dinheiro gasto mensalmente?
  • Quanto poderia receber daqui a 10 anos se tivesse investido esse dinheiro no Tesouro Direto regularmente?

Em outra analogia, frequentemente ouvimos que certa pessoa fumante compulsiva já “fumou um Audi” ou Ferrari com o dinheiro do cigarro, mas não pensamos no dano colateral – a saúde.

Estimando o custo de oportunidade

Calcular o verdadeiro custo de oportunidade não é tão transparente, mas felizmente descobri na página do Mr Money Mustache um truque que pode aproximar rapidamente o custo de um hábito repetido regularmente. É a fórmula mais próxima que achei do custo de oportunidade.

Segundo ele, para aproximar o custo total de um hábito repetido num período de 10 anos:

  • Se o custo é semanal, multiplique-o por 752.
  • Se o custo é mensal, multiplique-o por 153.

Assim, meu cafezinho solúvel custa R$10 mensais que me custam R$1730 em 10 anos.

O café no Starbucks do pessoal daqui do escritório? R$16 todo dia custando R$60495 depois de 10 anos.

Ouch!

O artifício psicológico

Além da matemática envolvida, um outro mecanismo me protege deste custo abusivo: o estoicismo. Especificamente, o estoicismo me protege da adaptação hedônica que inevitalmente aconteceria se eu tomasse um café de ótima qualidade (ahem, pessoal da cápsula Nespresso) regularmente.

Não há dúvida que meu cafezinho não é o melhor, talvez seja um dos piores até. Mas veja que meus hábitos não me impedem de tomar um café melhor em determinadas oportunidades, e, quando isso acontece, sempre aprecio completamente como este café é bom. Se tomasse um café de qualidade com frequência, porém, não iria apreciar da mesma forma – e até mesmo poderia enjoar.

Como adepto ao estoicismo, me resguardo desta adaptação hedônica e aprendo que este café é para consumo cotidiano; cafés melhores poderão me aguardam em situações especiais.


E vocês, preferem tomar café do Starbucks ou economizar sessenta mil reais?

Abraços e seguimos em frente!

Anúncios

13 comentários sobre “Confrontando o cotidiano 4 – O cafezinho de R$60.000,00

  1. Minha resposta é economizar R$ 60.000,00 e ainda pensar que não estou perdendo nada em nível de qualidade. Estes cafés de marca só têm coisas artificiais como cremes e aromas. As pessoas não pagam pelo café mas sim pelo simples momento do prazer e de não fazer nada ou de achar que está relaxando. Quando descobrimos que conseguimos com simplicidade substituir estes momentos é libertador e econômico.

    Curtido por 2 pessoas

    1. Celia

      Eu estou nessa jornada de aprender a lidar com dinheiro e estou mudando a minha mentalidade de ao invés de gastar, começar a guardar. Não é fácil, pois desde criança quando passava fome na infância o meu desejo era ganhar dinheiro pra gastar com o que quisesse e precisasse, até que depois eu descobri que se eu não economizar vou passar a vida inteira passando necessidade igual quando passava na infância.

      Curtido por 1 pessoa

      1. Oi Celia,

        Mensagem poderosa! Realmente as pessoas não percebem que quem infla o estilo de vida proporcionalmente ao aumento do salário continua no mesmo padrão de vida que antes.

        Fico feliz que tenha mudado de mindset. Fico imaginando que não deve ter sido fácil. Estou aqui torcendo por você pra alcançar a liberdade financeira junto com a gente da Finansfera!

        Abraços e seguimos em frente!

        Curtido por 1 pessoa

    2. Oi Malu,

      É verdade. O “café” servido no Starbucks muitas vezes tem tanta coisa adicionada que no final das contas pergunto-me se aquilo ainda pode ser chamado de café em si. Rs.

      Você está 100% certa; a simplicidade é libertadora. Não só economicamente, mas num conceito mental.

      Abraços e seguimos em frente!

      Curtido por 1 pessoa

  2. Oi Pinguim, também uso do mesmo método que você. Quando ganhamos uma máquina Nespresso, eu e meu marido passamos a tomar esse café todos os dias, às vezes até 2 ou 3 vezes. Só que depois de algum tempo percebemos que aquele café gostoso e especial tinha tornado só mais um café.Voltamos para o nosso café coado, para justamente não perdermos esse sentimento de “que café gostoso” que tínhamos. Outro exemplo é que eu tenho a opção de comer em restaurantes, já que a minha empresa dá um Vale Refeição. Mas eu preferi levar marmita e deixar para comer em restaurantes nos fins-de-semana, junto com a família e amigos. Desta forma faço escolhas melhores e aproveito melhor o dinheiro. Um beijo. Ótimo post.

    Curtido por 2 pessoas

    1. Oi Yuka,

      É bem assim mesmo. Eu acho que a adaptação hedônica é a raíz de toda a formação de hábitos ruins que temos. Qualquer restaurante passa a ficar sem gosto, vinhos perdem seus sabores, etc. E o carrão com “cheiro de carro novo” passa a ser um “meh.”

      Engraçado que esse lance do VR eu havia escutado pela primeira vez de um colega de trabalho anos atrás, antes de começar a trilhar o meu caminho pra IF. Na época, quando pensei no ato de levar marmita, achei muito trabalho envolvido pra pouco retorno.

      Hoje, só almoço marmita no trabalho, e meu VR cobre todas as refeições das minhas viagens.

      Abraços e seguimos em frente!

      Curtir

  3. Ótimo post, Pinguim!
    Eu também escolho a economia diária e acho que é inclusive melhor para a saúde.
    Eu fico preocupada com bebidas compradas prontas, por não saber quanto açúcar, corante e gordura estão escondidos na receita.
    E quanto à qualidade dos produtos, tenho um patamar mínimo que me satisfaz e me sinto bem com ele. São poucas as coisas que eu adquiro da marca mais cara por achar que a diferença de preço compense mesmo – os produtos “na média” são a maior parte das minhas compras e não costumo ter motivos para reclamar.

    Um abraço!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Olá Rafaela!

      Super concordo com você. Podemos pensar que os ganhos na saúde são o highlight, enquanto o benefício financeiro é apenas um efeito colateral positivo.

      Não tomo bebidas industrializadas já há anos, desde o fim da adolescência. No começo foi um pouco problemático se adaptar assim, mas hoje não vejo nenhuma bebida mais saciadora e refrescante do que a boa e velha água.

      O café, porém, continua forte comigo. Mas talvez eu preciso mudar esse hábito também hehe

      Abraços e seguimos em frente!

      Curtir

  4. Pingback: Quando o cara ensina a ganhar R$195 mil e ninguém leva ele a sério – Pinguim Investidor

  5. Acho que muitas vezes as pessoas tentam se compensar/premiar, com esses pequenos gastos frequentes. Um café, um chocolate, um presentinho para si mesmo e assim o dinheiro vai pelo ralo. Deveríamos pensar em formas de compensação que não exigissem desembolsos. Ou então é só questão de hábito, nem se pensa mais se aquilo faz de fato sentido, se trás ou não um benefício real. Por isso precisamos estar sempre atentos aos gastos.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Olá, Adriana!

      Obrigado pelo comentário. É verdade, eu não vejo nada de errado com um “presente” esporádico, mas é a adaptação hedônica e formação de maus hábitos que destroem patrimônios.

      Para uns até soa extremo, mas eu prefiro beber o café mais aguado, mais ruim possível no meu cotidiano do trabalho, porque assim, quando eu vou pro café de tarde com a minha esposa no fim de semana, o café é o melhor do mundo.

      Vou dar uma passada no seu blog depois também.

      Abraços e seguimos em frente!

      Curtir

  6. Pingback: Como parar de beber transformou minha vida – Pinguim Investidor

  7. Pingback: Dependências cumulativas irão te levar à desgraça – Pinguim Investidor

Deixe uma resposta para Celia Cancelar resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s