Quebrando a barreira dos 50%

Na foto de capa: Bell X-1, avião experimental movido por motor de foguetes que foi o primeiro a quebrar a barreira do som em 1948.


Como anoto os meus gastos todos os dias, tenho ciência total sobre o que gasto e no que eu gasto. Esta mudança sutil de hábito me levou a descobrir alguns insights interessantes sobre os meus próprios hábitos que documentei num post anterior. Na época, havia comemorado quando vi que pela primeira vez na vida documentada, havia conseguido economizar mais do que 40% do salário líquido, então minha meta mensal, o que me parecia extremamente ambicioso na época.

Avançando alguns meses após esse marco, fechei o relatório de Abril e tive mais uma outra elegante surpresa: 55% do salário mensal aportado para investimentos. Não consegui acreditar meus próprios olhos no começo, mas logo entendi o que se passava: quebrei a barreira dos 50% pela primeira vez, e meu aporte foi finalmente maior do que os meus gastos.

Todos os meus gastos (aluguel, condomínio, e contas inclusas) < 50% do meu salário.

Awesome! Como descrito por Jacob L Fisker em seu livro, eu tecnicamente não precisaria trabalhar o mês seguinte.

Comemorei silenciosamente o feito comigo mesmo e logo depois comecei a refletir: o que foi de diferente desta vez? Mudou alguma coisa do meu mindset? Este post descreve algumas das coisas que aprendi.

O poder da rotina

O hábito é sem dúvida a ferramenta mais poderosa da mente humana. Não surpreendentemente, quebrar hábitos ruins é uma tarefa hercúlea, mas felizmente você pode usar bons hábitos (ou forçá-los) para a sua própria vantagem. Por exemplo, me forcei em Abril a começar a acordar 1h30 mais cedo que de costume. Notei que os ganhos de produtividade foram excelentes, e fiz deste novo horário a minha nova rotina de manhã.

A rotina me ajudou em dois quesitos: evitar tentações e estabelecer eficiência. Por exemplo, no almoço diário do trabalho, a rotina estabelecida de trazer comida ou comprar pronta, assim evitando restaurantes encarecidos, e me economizando uma preciosa quantia que pude transformar em capital para investir. Eu já havia me atentado em qual solução pro almoço era a mais barata por quantia de comida recebida, portanto estabeleci a rotina simplesmente de seguí-la.

Rotina estabelecida também protegeu o meu dinheiro de descer alguns ralos abaixo, principalmente no quesito do álcool. Colocar a vida no calendário com hora de acordar, de exercitar, hora de ler e estudar me tirou espaço de possíveis perdas de dinheiro sem prazer.

Gastos conscientes

Este foi outro insight que a princípio é óbvio, mas percebi quanto poderoso era até que parei pra refletir. Como alguns gastos são inevitáveis, ter consciência de que serão feitos da maneira mais eficiente possível é crucial. O melhor exemplo que tenho aqui é o das compras do supermercado.

Temos duas opções perto de onde moro para fazer as compras. Uma é um supermercado que fica 5min andando de casa, tem variedade de produtos e horários flexíveis, ficando aberto até bem tarde. Extremamente conveniente e nos salvou várias vezes que precisávamos de alguma coisa.

A segunda é um supermercado que pedimos online, tem taxa de entrega, demora alguns dias para chegar, e os produtos são inclusive um pouco mais caros. Porém, os produtos, principalmente as carnes, vêm em porções muito maiores do que o supermercado local, podendo nos abastecer por quase 1 mês inteiro.

À primeira vista, não parece nem ter comparação: o supermercado local ganha em quase todos os quesitos de conveniência, rapidez e preço. Porém, a surpresa é que as porções grandes de carnes nos abastecem por mais tempo e, assim, se tornam mais baratas que o supermercado local. Mesmo pagando um pequeno spread a mais, é mais eficiente pagar mais pelo supermercado online.

Esta análise da eficiência dos gastos foi um dos fatores cruciais que auxiliou a reduzir os gastos inevitáveis de Abril. De fato, fechei o mês com 20% do orçamento de alimentação sobrando.

Redefinindo o lazer

Num post anterior, havia concluído que, muitas vezes, o lazer nada mais é do que um transporte e uma refeição embutida. Percebi que levei esta análise mais a fundo, e passei a redefinir o que o lazer significa, e o que ele precisa ou não envolver.

Por exemplo, percebi que muitas das atividades que eu e minha mulher gostamos de fazer envolvem estar ao ar livre, conhecer lugares interessantes, tirar boas fotos e tocar música. Estas atividades não têm custos altos envolvidos e podem ser realizadas em vários ambientes perto de onde moramos – não precisamos viajar só pra isso.

Com isso, inconscientemente a maior parte dos nossos lazeres foram se moldando para cobrir estes valores pessoais; tivemos mais piqueniques, dias nos parques e violão no mês passado que nos outros e isso nos deixou extremamente satisfeitos sem que precisássemos gastar a mais com coisas como noitada, bares ou cinema – que inclusive não teriam nos dado significantemente mais felicidade, lição da Vicky Robin.

Mas e o sacrifício?

Quem leu até este último parágrafo já deve estar pensando: pô, o cara corta todas as formas de lazer e entretenimento, passa a comer só de marmita e não sai mais pra beber. Será que vale tanto sacrifício assim pra aumentar o aporte?

Surpresa: Uma coisa não é um sacrifício se você não a vê como um sacrifício.

E, simples assim, acabam-se todas as preocupações do modo de vida frugal.

Não requeriu esforço nenhum em trocar as minhas formas de lazer, firmar meu plano de alimentação ou até estabelecer a minha agenda após o trabalho. Perguntei para a minha mulher se ela se sentiu privada de algum lazer durante o mês passado e a resposta dela ecoou a minha: não.

Eu não estou “sacrificando os prazeres da vida” para economizar, aportar e caminhar em direção à IF; eu estou simplesmente vivendo a vida orientado aos meus valores.


E aí pessoal, qual é a estratégia que vocês utilizam para economizar mais e aumentar seus aportes? Escrevam nos comentários!

Abraços!

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13 comentários sobre “Quebrando a barreira dos 50%

  1. Oi Pinguim. Achei esse post muito legal! Parabéns pelos 55% do salário mensal aportado. Desde o mês passado, eu comecei a estipular um limite de gasto mensal (até então, eu só achava: oh, que caro, deu 300 reais a compra da semana) e com isso eu ia gastando, gastando, gastando e quando percebi estava gastando um valor absurdo só no supermercado. No seu caso, talvez tenha abaixado o valor significativamente não só pelas porções maiores da carne, mas também porque não ir pessoalmente ao supermercado, significa não ter tentações vendo promoções. Só sei que no meu caso, depois que estipulei um limite, comecei a me virar para encaixar os gastos da alimentação no orçamento mensal. E com isso comecei a comprar carnes no açougue, parei de comprar frios (queijo, peito de peru etc) na padaria e passei a comprar no supermercado que era muito mais barato, passei a frequentar feira de rua, e com todas essas mudanças, os gastos na alimentação caiu bastante. E o melhor, estamos comendo melhor. Definitivamente, como você disse no final do post “Uma coisa não é um sacrifício se você não a vê como um sacrifício.” Perfeito!

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  2. Olá Yuka,

    Obrigado! É verdade, sem um limite “hard” estipulado, fica difícil controlar os gastos do mês. Procurar alternativas definitivamente me ajudou, e o mundo online também. Não tinha pensado na parte de tentações, isso foi bem observado! Eu uso um bloqueador de anúncios no meu navegador então quase nunca vejo “ofertas” na tela. Mais um ponto pra compra online!

    Eu ainda estou pra experimentar com dietas alternativas, inclusive ser semi-vegano algum dia pra ver como altera os custos no fim (me parece que proteína de soja ainda é umas 10x mais barata que a animal) mas vamos ver!

    Abraços, e que bom que gostou do post!

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  3. O Escriba

    Bem vindo ao lado de cá. Faz uns 5 anos que não sei o que é gastar mais de 50% do salário. Imagina quando você economizar 66% e cada mês vivido gerar 2 meses de descanso?

    Vocês já experimentaram comprar em atacado? Faz anos que visito atacados e casas de grãos uma vez por mês para abastecer as prateleiras. A economia é assustadora. Mesmo itens mais caros como carne, as vezes estão por quase metade do preço do supermercado da esquina. Casas de grãos também são ótimas. Compro material para fazer meu próprio pão e tudo que é tempero sai por 10% do custo daqueles saquinhos de 10g que se vê nos supermercados.

    Vale muito a pena, por mais que seja bem distante de casa. O problema quase sempre é ter espaço para estocar tanta coisa barata.

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    1. Opa! Pensamos em fazer em algum atacadista mas aqui por perto ainda não encontrei ainda. Talvez eu procure online depois, obrigado pela sugestão!

      Ah, e parabéns pelos aportes constantes! 50%+ todo mês vai te levar incondicionalmente à independência financeira!

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