Fazer é aprender

Post rápido sobre outro assunto que muitas pessoas conhecem, mas prestam pouca atenção no seu cotidiano. Recentemente, refleti sobre uma passagem do livro que estou lendo atualmente (Early Retirement Extreme, de Jacob L Fisker), onde o autor prega uma revolução na forma de se aprender, trabalhar e viver a vida de forma mais eficiente, onde o benefício por tabela é a independência financeira.

Neste livro, o autor aborda um conceito interessante, polêmico, e que faria muitos pais e jovens de 18 anos recém-saídos da escola tremerem na base: o sistema de educação atual prejudica o indivíduo e satisfaz somente o sistema, e precisa ser repensado se o indivíduo quiser se tornar independente.

O assunto não é necessariamente pristino (muitos já debateram a reforma do sistema escolar, incluindo esta palestra excelente que recomendo assistir), mas Fisker elabora sobre uma faceta menos debatida: a maioria do que se é ensinado não recebe prática, perdendo-se assim dentre as habilidades aprendidas na vida. Dizem por aí que quem sabe faz… mas será que sabe mesmo?

Tudo o que somos ensinados formalmente é o resultado de uma série de repetições de um mesmo processo:

  1. Sentar a bunda na cadeira de algum ambiente fechado.
  2. Ouvir e irrefutar as palavras de um instrutor / professor.
  3. Memorizar ao máximo tudo o que é ensinado para passar numa prova.
  4. Relaxar a mente sobre tudo o que foi testado no passo 3 uma vez que a prova é passada, culminando no esquecimento em alguns anos.

Este processo premia quem consegue ser disciplinado – e não ter disciplina própria, já que esta disciplina é imposta pelo instrutor sob pena de reprovação – e seguir ordens – memorize este conteúdo, aprenda a resolver este problema – mas deixa a desejar para aqueles que buscam reter conhecimento e sabedoria; em outras palavras, quem quer aprender. O resultado é uma força de trabalho denominada como “qualificada,” mas onde tudo o que se foi aprendido é o macroprocesso de se passar na prova, que será repetido novamente no escritório para cumprir as demandas do chefe.

Você notou se no processo acima se em algum passo:

  • O aluno tem chance de praticar em alguma situação fora das simulações na sala de aula?
  • Há alguma chance de experimentar com a habilidade de formas diferentes, buscando aperfeiçoar a habilidade com a experiência?
  • O aluno aprende a pensar criticamente, ou é ensinado a simplesmente seguir regras de como classificar as coisas?
  • O aluno se torna capaz de se tornar um instrutor através da experiência ganha ao invés de apenas repetir o que lhe fora ensinado nas aulas?

O denominador comum destas críticas é a falta da prática, do fazer, na experiência do aprendizado. Compare, por exemplo, com o jogador de futebol ou outro atleta profissional, que muitas vezes não teve nenhuma educação formal e aprendeu apenas por conta própria, aperfeiçoando a habilidade na prática. Ou com o artista, que se inspira e pratica a forma de tocar um instrumento ou pintar a tela até se tornar um mestre reverenciado por todos. A prática solidifica o aprendizado para sempre.

E justamente como é que isso se aplica ao mundo da independência financeira? Aplica-se integralmente, completamente, 100%. Enquanto os blogs e outros recursos da finansfera reforçam a necessidade de se educar através de livros, podcasts, cursos, e inúmeros outros recursos, pouco se fala da necessidade de se colocar em prática o que é ensinado. Os aspirantes ao movimento permanecem com alto conhecimento teórico, mas com experiência limitada, muitas vezes sem nunca colocar em prática a rica teoria que aprenderam.

Há uma certa justificativa no âmbito de risco, especificamente que no caso de investimentos, “experiência” no mercado pode vir com um custo na forma de prejuízo, mas ao longo prazo, o custo de oportunidade em não aprender a investir e acertar no investimento se torna mais caro, especialmente com o capital parado e rendendo apenas em poupança.

Portanto, qual o bottom line do post? Mais do que “quem sabe, faz,” devemos pensar que “quem sabe, fez.” Fazer é aprender, e se você não praticar, qualquer que seja a habilidade que queira aprender não será desenvolvida, seja para a cozinha, programação de computadores, jogar futebol, ou investir na bolsa. Complemente sempre a teoria com a prática, e descubra por experiência própria a melhor forma de fazer, e assim tenha sabedoria ao invés de só conhecimento.

Pra finalizar, compartilho uma anedota famosa sobre o pintor Pablo Picasso que acredito que ilustra bem o ponto deste post. Certo dia em um café em Paris, Picasso fez um rascunho rápido num guardanapo. Ao terminar seu café, prosseguiu a amassar o guardanapo e quando ia jogá-lo no lixo, a garçonete que o observava interferiu, e pediu para que lhe desse aquele rascunho. Picasso concordou, pedindo em troca alguns milhares de francos pela obra. Ela protestou que era injusto, já que ele não havia demorado mais de cinco minutos para fazê-lo. Picasso respondeu “Engano seu; este desenho levou mais de 40 anos para ser feito” e enfiou o guardanapo no bolso.

Abraço a todos!

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5 comentários sobre “Fazer é aprender

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